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GESTÃO MEC

Porto Alegre, 29 de outubro de 2005
Prezado amigo:
Estou remetendo só agora, uma síntese do trabalho da minha equipe à frente do Ministério da Educação durante os dezenove meses em que ali estive como gestor.
Trata-se, na verdade, de um trabalho engendrado por um conjunto de quadros políticos e técnicos, que conseguiram não só iniciar um processo de reversão qualitativa e quantitativa da educação pública no país, como também transformaram a agenda educacional numa agenda nacional e internacional, de relevância para o governo brasileiro.
Foram os seguintes os principais cargos de direção do MEC, neste período:

Secretaria Executiva - SE, Fernando Haddad

Secretário-Adjunto - Jairo Jorge da Silva

Chefe-de-gabinete do Ministro - Ronaldo Teixeira

Secretaria de Educação Básica - SEB, Francisco das Chagas Fernandes
Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica - SETEC, Antônio Ibañez

Secretaria de Educação Superior - SESU, Nelson Maculan Filho
Secretaria de Educação Especial - SEESP, Claudia Pereira Dutra Secretaria de Educação a Distância - SEED, Ronaldo Mota

Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade - SECAD, Ricardo Henriques

Instituto Benjamin Constant - IBC, Érica Deslandes Magno Oliveira

Conselho Nacional de Educação - CNE - Presidente, Roberto Cláudio Frota Bezerra; Secretário Executivo Ronaldo Motta, Gilberto Benetti

Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação - FNDE, José Henrique Paim Fernandes

Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais - INEP
Eliezer Moreira Pacheco

Fundação Joaquim Nabuco - FUNDAJ, Fernando Soares Lyra

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES, Jorge Almeida Guimarães
Assessoria de Relações Internacionais - Coord. Embaixadora Vitória; Alessandro Candeias.
A atual agenda continua sendo plenamente implementada pelo atual Ministro Fernando Haddad, aliás um dos responsáveis originários pela sua construção.

Fraternalmente
Tarso Genro



VISÃO SISTÊMICA DA EDUCAÇÃO

O Brasil encontra-se hoje frente ao desafio de assegurar ensino de qualidade para todos os seus cidadãos. Mas, para atingir esse objetivo, deve antes superar a visão fragmentada da educação que se desenvolveu nas últimas décadas e que é um dos principais obstáculos ao desenvolvimento de uma política educacional consistente. Esse enfoque, predominante até o início do atual governo, levou ao equívoco de tratar níveis, etapas e modalidades de ensino isoladamente, e não como momentos de um processo, objetivos particulares que só têm sentido dentro de uma unidade geral.
A visão fragmentada do ensino teve no Brasil conseqüências particularmente graves:
1 - Oposição entre educação básica e educação superior. Diante da crônica falta de recursos, entendeu-se que caberia ao gestor público optar pela primeira. Sem que a União aumentasse o investimento na educação básica, o argumento serviu de pretexto para asfixiar o sistema federal de educação superior, cujo custeio foi reduzido em 50% em dez anos, e inviabilizar a expansão da rede. O resultado para a educação básica: falta de professores com licenciatura para exercer o magistério e alunos do ensino médio desmotivados pela insuficiência de oferta de ensino gratuito nas universidades públicas.
2 - A atenção exclusiva ao ensino fundamental resultou em certo descaso com as outras duas etapas da educação básica (educação infantil e ensino médio). Sem que se tenha ampliado a já alta taxa de atendimento do ensino fundamental (93% das crianças em idade escolar do país em 1994), verificou-se uma queda no desempenho médio dos alunos dessa etapa. Sendo a educação infantil e o ensino médio, respectivamente, o esteio e o horizonte do ensino fundamental, sem eles este não avança.
3 - Oposição entre ensino médio e educação profissional. No governo anterior, foi vedada por decreto a oferta de ensino médio articulado à educação profissional e proibida por lei a expansão do sistema federal de educação profissional, medidas que desarticularam importantes experiências de integração. Num país em que apenas 35% dos jovens entre 15 e 17 anos se encontram matriculados no ensino médio, foi um erro desprezar o apelo da educação profissional para mantê-los na escola.
4 - As ações de alfabetização do governo brasileiro nunca estiveram sob a alçada do Ministério da Educação e jamais foram articuladas com a Educação de Jovens e Adultos. Atacava-se o analfabetismo, mas não o analfabetismo funcional. Promoviam-se campanhas com ONGs, e não programas estruturados de educação continuada em parceria com os sistemas municipais e estaduais. Além disso, perdia-se de vista a elevada dívida educacional com grupos sociais historicamente fragilizados.


OS QUATRO EIXOS DA POLÍTICA DO MEC

Nos últimos 20 meses, todo o esforço empreendido pelo Ministério da Educação, em parceria com movimentos sociais e organizações da sociedade civil, foi no sentido de superar as distorções da política educacional a partir de uma visão sistêmica do ensino. As ações do MEC foram reorientadas em torno de quatro reformas: educação básica, educação continuada, educação profissional e ensino superior.


1. ALFABETIZAÇÃO

1.1 BRASIL ALFABETIZADO

A reforma da educação continuada e da alfabetização começou com a criação da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação. A partir dessa medida, tornou-se possível articular a integração do programa de alfabetização com a Educação de Jovens e Adultos das séries iniciais do ensino fundamental.
Na prática, isso significa o fim das antigas campanhas de alfabetização, que tiveram resultados muito abaixo do desejável e não resolveram um dos mais graves problemas da educação no Brasil: o elevado índice de analfabetismo funcional. Esse índice chega a quase três quartos da população brasileira com idade entre 15 e 64 anos. São pessoas que apresentam sérias dificuldades de leitura e interpretação de textos, em grande parte porque não tiveram a oportunidade de dar seqüência aos estudos para além da alfabetização.

SÍNTESE

- Condições para que os egressos do Programa Brasil Alfabetizado tenham no mínimo quatro anos de escolaridade, articulando a alfabetização com a Educação de Jovens e Adultos (EJA)
- Possibilidade de seqüência dos estudos em outros níveis de ensino
- 1,7 milhão de alunos no Programa Brasil Alfabetizado em 2004
- 2,2 milhões de alunos matriculados até o final de 2005


2. EDUCAÇÃO BÁSICA

2.1 FUNDEB

A reforma da educação básica tem como ponto de partida a criação de um novo fundo de financiamento para o ensino: o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB). Ele deverá substituir o limitado modelo atual (o FUNDEF), que destina recursos exclusivamente ao ensino fundamental, deixando de lado a educação infantil e o ensino médio.
O FUNDEB é a resposta do Ministério da Educação ao nível de qualidade insatisfatório do ensino básico no Brasil. Considerando-se que o FUNDEF não eliminou alguns dos mais graves problemas de nossa educação, em especial o problema do acesso ao ensino médio, tornou-se necessário criar um sistema de financiamento mais abrangente, não limitado apenas ao ensino fundamental, e que estivesse alinhado a uma visão sistêmica do ensino.
Em parte, o crescimento ocorrerá com o aumento progressivo da complementação da União ao fundo. Atualmente, o valor da complementação da União ao FUNDEF não está previsto na Constituição Federal, como ocorrerá depois de aprovada a Proposta de Emenda Constitucional do FUNDEB. A quantia estimada até o final de 2005 é de R$ 395,3 milhões. O FUNDEB fixará um valor anual para a complementação do governo federal ao fundo. Em quatro anos, essa parcela de recursos adicionais para o ensino básico chegará a R$ 4,3 bilhões.
Esses recursos terão origem na vinculação de parcelas de tributos aos gastos com o ensino. Os percentuais dos impostos vinculados à educação são definidos pela Proposta de Emenda Constitucional que prevê a criação do FUNDEB, com previsão de aumento progressivo das alíquotas.
O critério para distribuição dos recursos é um valor mínimo por aluno matriculado em cada nível de ensino. Este mecanismo, que existe desde a criação do FUNDEF e será mantido com o FUNDEB, é um instrumento para a redução das desigualdades entre as regiões brasileiras.
A proposta de criação do FUNDEB prevê a recuperação do valor mínimo investido por aluno matriculado, que sofreu queda real nos primeiros anos de vigência do FUNDEF, de 1997 a 2002, e só voltou a crescer entre 2003 e 2005. Neste último período, houve crescimento real de 20%, mas persiste a necessidade de elevar ainda mais os investimentos públicos na educação básica.
Parte dos recursos - 60%, segundo a Proposta de Emenda Constitucional enviada ao Congresso - será destinada à remuneração dos professores. O FUNDEB deverá ainda potencializar o plano para a qualidade da educação básica lançado pelo Ministério da Educação no primeiro semestre de 2005.
O FUNDEB deverá ter 14 anos de vigência. Nesse período, o governo federal investirá, só na complementação da União ao FUNDEB, R$ 55,4 bilhões (valores de 2005).

SÍNTESE

- Criação de um fundo de financiamento para a educação básica mais abrangente que o FUNDEF, que atenda não só o ensino fundamental, mas também a educação infantil e o ensino médio
- Aumento do número de alunos atendidos, dos atuais 30,7 milhões para 47,2 milhões
- Aumento da complementação da União ao Fundo da Educação Básica de R$ 395,3 milhões (orçamento de 2005) para R$ 4,3 bilhões em quatro anos
- Aumento do valor anual total do fundo, dos R$ 31,6 bilhões do FUNDEF para R$ 50,4 bilhões com o FUNDEB, em um prazo de quatro anos
- Destinação de 60% dos recursos do FUNDEB à remuneração dos professores


2.2 AGENDA DA QUALIDADE DA EDUCAÇÃO BÁSICA

Em abril de 2005, o Ministério da Educação lançou uma agenda de trabalho destinada a elevar a qualidade da educação básica no Brasil. Essa agenda prevê programas de formação de professores (com a criação do Sistema Nacional de Formação de Professores), ações de apoio ao ensino médio (que não recebe recursos do FUNDEF), qualificação da gestão dos sistemas educacionais estaduais e municipais e ampliação dos instrumentos de avaliação do ensino.

a) FORMAÇÃO DE PROFESSORES

Para a formação inicial de docentes que já estão em atividade em escolas da rede pública, o Ministério da Educação lançou três ações. A primeira é o Pró-Licenciatura, um programa que oferecerá, gratuitamente, formação superior a professores das séries finais do ensino fundamental e do ensino médio, além de uma bolsa de estudos de R$ 800 por ano.
As outras duas ações são os programas Pró-Infantil - de formação de professores para creches e pré-escolas - e Pró-Formação - para professores das séries iniciais do ensino fundamental. Nos dois casos, trata-se de uma formação de nível médio com aulas a distância.
O sistema inclui ainda um programa de formação continuada. O Pró-Letramento é um programa de atualização de conteúdos para professores em língua portuguesa e matemática, disciplinas em que os alunos mostram maiores dificuldades de aprendizado. Esse programa vem responder o SAEB que apresentou dados alarmantes: 54% das crianças na quarta série não conseguem interpretar um texto primário e 52% não dominam as quatro operações básicas da matemática. O Pró-letramento é uma ação qualificada e objetiva para reverter este quadro.

b) QUALIFICAÇÃO DA GESTÃO EDUCACIONAL

Para assegurar o sucesso da agenda para a qualidade do ensino básico, o Ministério da Educação lançou também programas de capacitação da gestão dos sistemas escolares. Um deles é a Escola de Gestores, programa de qualificação para diretores de escolas públicas que começou a ser testado em 2005 e deverá ter continuidade em 2006.
O Sistema Nacional de Gestão do MEC prevê ainda programas de capacitação de conselhos escolares, integrantes de conselhos municipais de educação e dirigentes municipais.

c) SAEB AMPLIADO

A qualidade da educação no Brasil, desde 1995, é mensurada pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), que produz, a cada dois anos, informações sobre o aprendizado de Língua Portuguesa e Matemática pelos alunos.
Ao longo do tempo, o sistema mostrou queda nos níveis de aprendizado e disparidades entre regiões e estados, entre alunos ricos e pobres e de origens étnicas diferentes. Curiosamente, o SAEB tem produzido poucas mudanças efetivas nos sistemas de ensino: não induziu, em larga escala, a adoção de políticas de melhoria de qualidade. Uma das razões é a forma como é realizado atualmente. Na metodologia atual, o sistema de avaliação produz informações por estado, mas diz pouco sobre a situação dos municípios e das escolas.
A partir deste ano, o SAEB passará a oferecer informações por escola. Haverá uma base forte de informações de aprendizado, gestão e relações sociais e pedagógicas da comunidade escolar em cada escola brasileira. A ampliação deverá ocorrer a partir de novembro.

SíNTESE

- Lançamento do Sistema Nacional de Formação de Professores, com programas de formação inicial e continuada de docentes para as escolas brasileiras
- Desenvolvimento de programas de melhoria da gestão das escolas e dos sistemas educacionais em estados e municípios
- Ampliação do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), que passará a oferecer informações mais detalhadas sobre o ensino no Brasil


2.3. MERENDA ESCOLAR

O orçamento do Programa Nacional de Alimentação Escolar em 2005 é de R$ 1,266 bilhão. Com esses recursos, o MEC terá condições de garantir até o final do ano a merenda escolar de 36,4 milhões de estudantes brasileiros. O valor da merenda por aluno, que no início do governo Lula era de R$ 0,06 na educação infantil e de R$ 0,13 no ensino fundamental, passou para R$ 0,18.

GESTÃO TARSO GENRO
- Aumento de 38,5% no valor da merenda escolar por aluno


2.4 LIVRO DIDÁTICO

Em 2005, o programa do livro didático foi ampliado para atender não só alunos do ensino fundamental, mas também do ensino médio. Este ano, já foram atendidos 1,3 milhão de alunos do 1º ano do ensino médio de escolas das regiões Norte e Nordeste, que receberam 2,7 milhões de livros de Língua Portuguesa e Matemática. Até o início do ano letivo de 2006 serão adquiridos livros didáticos das duas disciplinas para 7,1 milhões de alunos dos três anos do ensino médio das redes públicas do país.

GESTÃO TARSO GENRO
- Distribuição de livros didáticos para alunos do ensino médio em escolas públicas das regiões Norte e Nordeste


2.5 ENSINO FUNDAMENTAL DE NOVE ANOS

O FUNDEB permitirá a consolidação de um amplo conjunto de programas destinados a elevar a qualidade da educação básica brasileira. Entre eles, a ampliação do ensino fundamental de oito para nove anos. Com essa medida, a educação básica no Brasil passará ter a mesma duração que nos demais países do Mercosul, com exceção do Chile.

GESTÃO TARSO GENRO
- Envio ao Congresso Nacional de projeto de lei ampliando a duração do ensino fundamental no país de oito para nove anos, concedendo prazo de cinco anos para que os sistemas educacionais se adaptem à mudança


2.6 ESCOLA ABERTA

Em 2004, o MEC lançou um projeto-piloto em 154 escolas de três regiões metropolitanas brasileiras (Belo Horizonte, Recife e Vitória) com o objetivo de reduzir os índices de violência entre os jovens. Esse projeto foi o embrião do programa Escola Aberta, que será ampliado até o final de 2005.
As escolas públicas participantes do programa são mantidas abertas nos finais de semana, com a oferta de oficinas e atividades esportivas gratuitas à comunidade. Graças a esse projeto, milhares de jovens brasileiros têm agora novos espaços de lazer e cultura nas localidades onde vivem.

SÍNTESE

- Ampliação do Programa Escola Aberta para 1,2 mil escolas do país, em mais seis regiões metropolitanas (Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e Vitória)


3. EDUCAÇÃO PROFISSIONAL

3.1 ENSINO MÉDIO INTEGRADO À EDUCAÇÃO PROFISSIONAL

A reforma da educação profissional é mais do que uma contra-reforma. Não bastaria apenas reverter as medidas adotadas anteriormente, como a extinção do ensino técnico de nível médio, ocorrida em 1997. Era preciso dar conseqüência ao disposto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, documento que deve orientar a ação do governo brasileiro na área educacional. Para tanto, neste ano o MEC reintegrou o ensino profissional ao ensino regular e lançou um conjunto de ações para qualificar a formação tecnológica dos trabalhadores do país.

SÍNTESE

- Publicação do decreto presidencial 5.154, que regulamenta quatro artigos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação e permite a articulação entre ensino médio e ensino técnico


3.2 ESCOLA DE FÁBRICA

Um exemplo dos esforços do MEC pela qualificação profissional dos trabalhadores brasileiros é o Programa Escola de Fábrica, que levou a educação profissional ao ambiente de trabalho e se ampliou o acesso de jovens e adultos ao ensino técnico. Os estudantes - em sua ampla maioria, jovens que de outra forma não teriam uma oportunidade como essa de se preparar para o mercado de trabalho - recebem, além do ensino técnico e regular, uma ajuda de custo do governo federal.

SÍNTESE

- Criação de 558 Escolas de Fábrica dentro de empresas brasileiras, com formação profissional, bolsas de estudos e ajuda de custo para os estudantes


4. EDUCAÇÃO SUPERIOR

4.1 REFORMA DA EDUCAÇÃO SUPERIOR

Em 2004, o MEC deu início à discussão da proposta de reforma do ensino superior no Brasil. Estudantes, professores e funcionários de instituições de ensino e organizações da sociedade civil tiveram a oportunidade, inédita no país, de opinar sobre os rumos da universidade. Depois de meses de debate e da elaboração de três versões diferentes da proposta, o projeto de lei da reforma da educação superior no Brasil foi encaminhado à Casa Civil para imediato envio ao Congresso Nacional.
Se aprovado, o projeto garantirá a autonomia das universidades federais, em um sistema dinâmico que premiará o mérito institucional. A reforma deverá também regular a oferta de educação superior pelo setor privado. Em razão da ausência de um marco legal estável, esse segmento teve uma expansão caótica nos últimos anos, o que levou o atual governo a criar mecanismos mais rígidos para controlar a abertura de instituições e cursos superiores no Brasil.

SÍNTESE


- Debate com estudantes, professores e movimentos sociais sobre a proposta de reforma da educação superior no Brasil
- Garantia de autonomia para as universidades federais
- Afirmação do papel da universidade no desenvolvimento do país e na superação das desigualdades sociais e regionais
- Regulação da expansão do ensino superior privado


4.2 POLÍTICA DE COTAS

Um dos objetivos da reforma do ensino superior proposta pelo MEC é democratizar o acesso à universidade, especialmente para grupos sociais historicamente excluídos, como indígenas e afro-descendentes. O projeto de lei encaminhado ao Congresso prevê que as instituições desenvolvam políticas afirmativas para esses grupos, sem prejuízo à autonomia de cada universidade, e estabelece a reserva de vagas para estudantes de escolas públicas. Em 10 anos, segundo a proposta do MEC, metade das vagas nas universidades federais serão destinadas a alunos que cursaram o ensino médio na rede pública.

SÍNTESE

- Proposta de reserva de 50% das vagas nas universidades federais para estudantes de escolas públicas e percentual correspondente para negros, pardos e indígenas, respeitando a representatividade populacional , segundo dados do IBGE
- Ações afirmativas destinadas à promoção do acesso de grupos excluídos, como indígenas e afro-descendentes.

4.3 EXPANSÃO DA REDE FEDERAL DE ENSINO SUPERIOR

A reforma da educação superior está associada à expansão das instituições federais de ensino superior. Em uma etapa preliminar, o MEC recuperou 80% das verbas de custeio das universidades federais e restabeleceu sua capacidade de investimento. Nove universidades novas estão em processo de criação, e o MEC está criando ou consolidando 36 campi de instituições já existentes no país.

SÍNTESE

- Criação de nove universidades federais : Universidade Federal do Pampa, Universidade Federal da Grande Dourados, Universidade Federal do ABC, Universidade Federal do Recôncavo Baiano, Universidade Federal Rural do Semi-árido, Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Universidade Federal de Alfenas e Universidade Federal Tecnológica do Paraná
- Criação ou consolidação de 36 campi de instituições de ensino superior já existentes no país, incluindo a transformação da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre em Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre .


4.4 PROGRAMA UNIVERSIDADE PARA TODOS (PROUNI)

Em 2004, o MEC criou o Programa Universidade para Todos (ProUni), com o objetivo de assegurar a estudantes de baixa renda e de escolas públicas o acesso ao ensino superior. Esse programa permitiu a regulação - ainda que com atraso de 16 anos - de isenções fiscais constitucionais concedidas às instituições privadas de ensino.
Só no primeiro semestre de implantação do programa, foram concedidas 112 mil bolsas de estudos integrais ou parciais. Paralelamente, o MEC ampliou também o sistema de financiamento das mensalidades de alunos de baixa renda que já existia no país, o FIES.

SÍNTESE

- Concessão de 112 mil bolsas de estudos integrais ou parciais (50% das mensalidades) para estudantes de baixa renda e de escolas públicas em instituições privadas de ensino superior pelo Programa Universidade para Todos (ProUni)
- Ampliação do Financiamento Estudantil (FIES) para bolsistas parciais do ProUni



POLÍTICA INTERNACIONAL DO MINISTËRIO DA EDUCAÇÃO

TROCA DA DÍVIDA POR INVESTIMENTOS EM EDUCAÇÃO

De 2004 para cá, começou a ser discutida pela Organização dos Estados Ibero-americanos a conversão de parcelas da dívida externa oficial de países em desenvolvimento em investimentos em educação. A proposta, inspirada no movimento Jubileu 2000, que reivindica o perdão da dívida externa dos países do Sul, tem estreita relação com as metas da Declaração do Milênio, da Organização das Nações Unidas, como se pode constatar em um breve histórico de sua evolução.
Em 2002, a Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, em Monterrey (México), aprovou consenso em torno da implementação da Declaração do Milênio, convidando bancos e instituições financeiras a inovarem em proposições para o serviço sustentável da dívida externa dos países do Sul. No ano seguinte, a XIII Conferência Ibero-americana de Educação (Tarija, Bolívia) acolheu a proposta dos ministros da Educação do Brasil e da Argentina de promover um movimento em favor do aumento dos investimentos em educação de qualidade com eqüidade. A conferência sugeriu um estudo sobre a possibilidade de troca de títulos públicos por títulos da dívida externa para financiar esses investimentos.
Ainda em 2003, o tema foi discutido em Genebra, na 32ª Conferência Geral da Unesco e incluído no relatório final a pedido do ministro da Educação do Brasil. A Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) encomendou o estudo à organização Economistas Sem Fronteiras.
Em 2004, na reunião do Conselho Diretor da OEI, no México, foi criado um grupo de trabalho, integrado por Argentina, Brasil, Chile, México e Nicarágua, para tratar da questão. Em junho, os ministro de Educação do Mercosul, em sua 26ª reunião, destacaram a conveniência de aumentar o nível de investimento com o uso de parte dos juros da dívida.
Em novembro de 2004, a proposta, inspirada em uma prática corrente nas relações bilaterais de países como o Canadá, Suécia, França e Suíça com outras nações, foi explicitada na XIV Cúpula Ibero-americana, em São José (Costa Rica). Em janeiro de 2005, o primeiro-ministro espanhol, José Luís Rodriguez Zapatero, oferece a conversão em investimento em educação de US$ 60 milhões da dívida da Argentina.
O MEC negocia atualmente um projeto-piloto com o governo espanhol pelo qual poderia converter US$ 25 milhões de sua dívida em gastos na área. Como demonstraram experiências anteriores em outras nações, investimentos em educação geram mais retorno econômico do que empréstimos financeiros, sobretudo em decorrência dos ganhos de produtividade que propiciam, e podem funcionar como um poderoso instrumento de estímulo ao desenvolvimento.
Paralelamente às ações no âmbito ibero-americano, o MEC tem se esforçado por ampliar o alcance da proposta, de modo a elaborar um programa de conversão mais abrangente, que envolva novos atores governamentais e não se restrinja à dívida oficial dos países em desenvolvimento, mas inclua também sua dívida comercial. Essa proposta foi defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Cúpula Ibero-americana de Salamanca. O governo federal também considera a possibilidade de oferecer a participação no programa a países dos quais é credor, na África e na América Latina.

SÍNTESE
- Articulação com o governo argentino para elaboração de proposta de troca da dívida externa dos países em desenvolvimento por investimentos em educação
- Negociação de um projeto-piloto em cooperação com o governo da Espanha
- Defesa da proposta em reuniões e seminários internacionais

ESCOLAS DE FRONTEIRA

Em junho de 2004, Brasil e Argentina divulgaram uma declaração conjunta propondo-se a estimular a integração de escolas situadas na fronteira entre os dois países. Esse documento foi o primeiro passo para a criação do Programa Escolas Bilíngües em Zonas de Fronteira, lançado pelo MEC em março de 2005.
O programa está sendo aplicado de forma experimental em duas escolas brasileiras (em Dionísio Cerqueira e Uruguaiana) e duas escolas argentinas (em Bernardo Irigoyen e Paso de los Libres). Duas vezes por semana, professores atravessam a fronteira para dar aulas em seu idioma aos alunos do país vizinho, para que eles se familiarizem com a língua e tenham interesse em estudá-la.
Por enquanto, participam do programa estudantes da 1ª série do ensino fundamental. Para alunos de outras etapas da educação básica, estão sendo desenvolvidas atividades que envolvem o uso dos dois idiomas: feiras de ciências, comemoração de festas populares dos dois países, produção de jornais bilíngües e troca de correspondência com os colegas do outro lado da fronteira.
O Ministério da Educação está tratando da ampliação do programa para escolas na fronteira do Brasil com o Uruguai. Já houve contatos com o governo uruguaio e, no momento, está sendo feito um levantamento dos municípios - possivelmente Santana do Livramento e Chuí, no Brasil, e Rivera e Chuy, no Uruguai - e das escolas em que o programa será adotado.

SÍNTESE
- Acordo com a Argentina para a instalação de escolas bilíngües em cidades na fronteira entre os dois países


Comunidade dos Países de Língua Portuguesa - CPLP