Entrevista Revista Diversa - UFMG

Universidade Federal de Minas Gerais
Centro de Comunicação - Cedecom
Texto retirado da Revista Diversa 6 - março 2005
Entrevista - Ministro Tarso Genro
"A universidade reflete a ambigüidade
da sociedade brasileira"
Uma inesgotável
disposição para o diálogo tem sido exigida do ministro da Educação,
Tarso Genro, desde que ele elegeu como prioridade de sua gestão a reformulação
do Ensino Superior brasileiro, ou seja, a implementação da tão reclamada
Reforma Universitária.
O embate em
torno da proposta submetida à discussão da sociedade mal começou
e os ânimos já se mostram acirrados. As críticas circunscrevem-se
a aspectos formais ou a conteúdos específicos do projeto, como também,
em certos casos, denotam, da parte de alguns interlocutores, uma rejeição
integral à proposta. Subjacente a essa posição, desenha-se um confronto
político mais profundo, que envolve a delimitação do espaço público
e do privado na esfera da Educação Superior, bem como a definição
sobre até onde vai a prerrogativa do Estado de exercer um papel regulador
sobre essa atividade.
Intelectual
com forte vocação para a práxis, como atesta sua carreira política
- que inclui a administração de uma das mais importantes capitais
brasileiras -, essa disponibilidade para dialogar sobre os temas específicos
de sua pasta foi, mais uma vez, posta à prova quando, dias atrás,
num gesto de especial gentileza, Tarso Genro abriu espaço em sua atribulada
agenda de trabalho para receber Diversa, em seu gabinete, no Ministério da Educação.
O Ministro falou,
de maneira geral, sobre as diretrizes que ele vem imprimindo ao MEC,
mas o tom da conversa foi dado, evidentemente, pelo tema central desta
edição - as interfaces entre Universidade e sociedade. E, nessa
agenda, a Reforma Universitária inscreve-se, no momento, como o tópico
mais candente em pauta no âmbito da Educação Superior brasileira.
DIVERSA - Sendo a universidade uma instituição
secular, mas relativamente recente no Brasil, o senhor acredita que,
ao longo de seus poucos anos, a universidade brasileira tenha construído
um conceito suficientemente sólido para legitimar-se junto à sociedade?
Tarso
Genro - Sim e não. Sim, porque a universidade
brasileira e, particularmente, a universidade pública, sempre esteve
no centro das grandes questões humanísticas, políticas e científicas
que formaram o Brasil moderno. Portanto, é improvável que pudéssemos
pensar o Brasil contemporâneo sem considerar a importância da universidade.
E não, porque a universidade brasileira é desconhecida do seu próprio
povo e não tem uma relação mais profunda com a sociedade, em função
de um processo restritivo a que ela foi submetida, ao longo da sua história,
que impossibilitou sua expansão, sua capacidade de universalização,
que está representada no fato de que apenas 11% dos jovens, aproximadamente,
chegam à universidade em geral, e muito menos ainda, à universidade
pública. Então, a universidade reflete essa ambigüidade da sociedade
brasileira, de um país fendido, de um país partido, de um país, eu
diria grosseiramente, fragmentado. O fato é que se deve pensar sempre
a universidade a partir de uma perspectiva de futuro, ou seja, da compreensão
de que é impossível pensar-se uma nação verdadeiramente moderna,
coesa e democrática sem que se tenha, no centro desse projeto, uma
visão clara da importância da universidade pública para a consecução
desse objetivo.
Contrariamente
à formação humanística e, até, bacharelesca dos primeiros tempos,
dá-se, modernamente, ênfase toda especial à pesquisa e à formação
científico-tecnológica. Essa tendência corresponde à real demanda
da sociedade brasileira?
Não sei propriamente
se corresponde a uma demanda, mas tenho certeza de que corresponde a
uma necessidade. A gente vê muitas ironias quando lê algumas referências
à universidade do passado e sua propensão bacharelesca. Agora, o fato
é que a universidade corresponde, na estrutura social, àquilo que
as elites do País projetam para que ela faça e para que ela se dedique.
Nessa fase bacharelesca da universidade brasileira, a produção de
elites que cumprissem uma função mediadora e organizadora não só
do Estado mas também da retórica do Estado, correspondeu à função
da universidade brasileira e, independentemente do aspecto, eu diria,
classista e discriminatório que esse processo teve, ele correspondeu
a um determinado estágio de formação desta Nação. Até hoje, aquilo
que se coloca, comumente, como grandes questões globais - a questão
da competitividade internacional, a questão da brutal e grosseira hegemonia
norte-americana do ponto de vista financeiro, econômico, científico-tecnológico
- exige dos países que ainda não terminaram de compor seu destino
nacional enfrentar uma outra etapa, que é formar elites científicas,
elites com capacidade de produção de tecnologias, para que o País
possa acompanhar esse cenário internacional e compartilhar dele de
maneira adequada. A grande questão, na minha opinião, não é esta
dualidade: se a universidade deve ser uma universidade de humanidades
ou uma universidade da ciência e da tecnologia. É saber quem comanda
o que, ou seja, se o movimento em direção à formação dessas elites
científicas e tecnológicas é um movimento que tem densidade filosófica,
cultural e humanística suficientemente articulada e clara para que
essa ciência e essa tecnologia não sejam, também, uma forma de diferenciação,
de produção de diferenciação social, de apropriação desigual dos
frutos do progresso. Essa é a questão-chave, ou seja, como integrar
essa totalidade. Um engenheiro... Ele vai ter que conhecer o Cálculo,
ele vai ter que conhecer as leis da Física, ele vai ter que ter uma
sólida formação na Ciência Pura. Agora, esse engenheiro, ele pode
estar vocacionado para construir tanto campos de concentração como
casas cômodas para os habitantes do País. Então, essa é a grande
questão, em última análise a que a universidade tem que responder,
hoje, à sociedade, em seu conjunto.
Como a Reforma
Universitária, conforme está desenhada no anteprojeto elaborado pelo
MEC, pode contribuir para otimizar a interface da universidade com a
sociedade?
Nós estamos
no curso de uma discussão política e, também, conceitual e especialíssima
sobre a reforma do Ensino Superior e é extremamente interessante verificar
algumas posições que estão sendo vertidas, em alguns editoriais da
grande imprensa e em outros artigos assinados, sobre os pressupostos
da reforma. Tivemos a felicidade, na minha opinião, de colocar, nos
artigos iniciais que compreende esse anteprojeto, os princípios constitucionais
que dão fundamento ao projeto nacional e, portanto, à república brasileira
e de transformar essas normas constitucionais num corpo de artigos que
introduzem a proposta da reforma. Para minha surpresa, os textos indignados
que vieram contra a reforma vieram, precisamente, contra esses artigos.
Não discutiram as propostas técnicas de reforma, que estão ali. Quem
fez isso, quem está fazendo isso, aliás, é a Andifes, a SBPC, a UNE
e outras entidades. Mas esses editorialistas e articulistas preocuparam-se
em bombardear, pesadamente, esses artigos iniciais, ou seja, bombardeando
os fundamentos da República e, diretamente, a Constituição do Brasil.
Isso não só significa que eles não sabiam que a Constituição dizia
aquilo, mas também significa que não sabiam que aquilo era Constituição,
ou, então, significa que eles são totalmente indiferentes ao pacto
constitucional brasileiro. Que significa isso? Significa uma visão
política, ideológica, ou seja, a descartabilidade da norma constitucional
é uma posição política e ideológica profundamente autoritária,
que retira da Constituição sua força normativa, mas precisa se apoiar
em outra força normativa. Qual é ela? Fica claro: é o mercado e não,
a Constituição. Portanto, quero dizer com isso que a universidade
vai ser sempre política e vai ser sempre politizada, e as opiniões
sobre ela também - mesmo que as pessoas digam que estão emitindo
opiniões em nome de uma posição antipolítica ou contrapolítica
ou pré-política. Porque o juízo sobre a instituição é sempre um
juízo político. Ele pode ser um juízo político que diga que deve
se extinguir a política moderna, que é a relação de partidos, que
é a relação de idéias, e substituir esse jogo pelo jogo da tecnocracia,
ou do capital, diretamente pelos seus gerentes; ou ele pode dizer que
a universidade tem que espelhar o jogo de idéias que está na sociedade.
Isso é muito diferente de produzir uma instituição universitária
partidarizada. Ela não pode ser partidarizada. Ela tem que ser plural,
profundamente democrática e abrangente. Agora, seus limites são sempre
os limites do pacto constitucional e, neste sentido, a visão de reforma
que estamos trabalhando - não nos envergonhamos de dizer - tem,
sim, tem uma perspectiva de universidade de alta qualidade na pesquisa,
de alta qualidade no projeto educacional, de formação de quadros de
alta qualidade humanística e científica, mas com referência àquilo
que está na Constituição. Que a universidade aponte as lutas contra
as desigualdades regionais, a luta contra a pobreza e a redução das
desigualdades sociais. Se a universidade não estiver embutida nesse
pacto institucional, ela vai estar embutida em um outro pacto, que é
o pacto de fato, que é o pacto que o mercado impõe à vida das pessoas
e à sociedade, como se não fosse uma força normativa. Mas é a mais
forte que há, inclusive hoje, em relação, até, à própria Constituição.
Caberia à
universidade um papel estratégico na construção de um projeto de
nação e em que medida ela pode colaborar para a inserção positiva
do Brasil no mundo globalizado?
Eu diria até
mais. Eu diria que não há universidade sem que ela esteja contribuindo
para um projeto de nação, seja ele qual for. Seja uma universidade
como no tempo do Heidegger - a universidade nazista -, seja a universidade
em um país burocrático, totalitário, seja em um país democrático,
seja no âmbito da social democracia. O que se discute, efetivamente,
é qual o projeto de nação em que essa universidade se integra. Isso
é, em última análise, o que se disputa a respeito dos rumos da universidade.
Tenho uma pluralidade de opções. Tenho, por exemplo, a visão de uma
universidade que, estreitamente ligada ao mercado, seja simplesmente
uma construtora de produtos, uma construtora normativa, científica,
para produtos de alta tecnologia, que se destinam, fundamentalmente,
à guerra, por exemplo, ou uma universidade em que a pesquisa pura seja
uma pesquisa encaminhada para outras finalidades. Isso está imbricado
numa vocação de nação, seja uma vocação de nação destinada a
dominar o mundo ou a extrapolar suas fronteiras em relação aos países
vizinhos, já que "a gente vive na fatalidade das felicidades da Terra"
(Kant), ou de uma universidade que busque uma qualidade ótima em seus
projetos de pesquisa, em seus projetos educacionais, mas que o produto
seja uma produto voltado para a paz, voltado para as correções das
desigualdades sociais, voltado para socializar a inteligência e armazenar
o conhecimento e distribuí-lo de forma adequada. Em ultima análise,
é isso que se disputa. Não é ingênua a posição daqueles que defendem
que a universidade não deve ter propósitos, não deve ter finalidades,
porque sustentar, defender e produzir uma universidade sem propósitos
é defender e produzir uma universidade cujos propósitos estão vinculados
à espontaneidade da relação mercantil, que é a espontaneidade mais
forte na sociedade capitalista.
Como seu ministério
pretende apoiar a universidade no seu esforço para implementar políticas
de inovação, facilitando e, até, acelerando o trânsito do conhecimento
gestado nessas instituições para o setor produtivo da economia?
Isso está bastante
claro na nossa visão de reforma. Não apenas essa aproximação que
propomos, de maneira formal, às instituições - que façam a "lincagem"
da universidade com a sociedade - como também por uma visão de que
a universidade não pode ser alheia ao mercado nem ao mundo privado.
Ela tem que ter as mediações públicas necessárias para realizar
esse encontro e tem que se vincular ao mundo da produção, não somente
pela natureza de sua pesquisa mas, também, pela criação de uma elite
científica e intelectual, voltada para a produção. Disso não temos
nenhuma dúvida. O que dizemos - e que está implícito no nosso projeto
de reforma -, é que todo esse movimento deve ser feito numa dimensão
pública, ou seja, a universidade deve interferir nessas relações
e produzir seus projetos e suas ações, e não deve ser um objeto passivo
daquilo que é exigido pela relação mercantil, porque isso significaria
entregar a universidade apenas àqueles que têm mais dinheiro para
comprar seus serviços, para comprar sua inteligência ou para produzir
seus projetos. Esse é precisamente o papel normativo que o público
deve ter em relação ao mundo privado, sem, evidentemente, desconhecer
a especificidade, sem tirar a legitimidade do mundo privado, que
é o mundo sobre o qual, inclusive, o próprio sistema público se sustenta,
mas interferindo no processo produtivo, na base produtiva, em cima de
um projeto público, em cima de uma visão pública, portanto, em cima
de uma visão de nação.
O papel da
universidade na produção científica e tecnológica é bastante consensual,
mas, ainda que tenhamos um desafio enorme nesse campo, não é menor
o desafio do País na área social. Qual seria a contribuição da Universidade
na produção de tecnologias sociais que pudessem ajudar a reverter
esse quadro?
Parece que essa
produção está mais vinculada à pesquisa e à extensão, embora,
evidentemente, tenha, também, uma relação com o ensino. Essas tecnologias
sociais estão vinculadas, claramente, à autonomia da universidade
e balizadas pelos objetivos constitucionais, mas, sobretudo, é um processo
de grande pluralidade, de um contraditório extraordinariamente importante,
que lhe pode dar legitimidade. Por exemplo, as tecnologias sociais
voltadas para a inclusão social que vêm da universidade. De lá, vem
tanto uma visão, eu diria, mais afeita às políticas de natureza compensatória,
que também são produzidas pela universidade, como, também, vêm propostas
de tecnologias sociais que têm a questão da inclusão como um elemento
de reorganização da estrutura de classes da sociedade. Ambas as contribuições
são legítimas e o Estado não pode sufocá-las. O Estado deve, inclusive,
estimulá-las. Agora, o que parece mais adequado para um país como
o Brasil é que sejam estimuladas as tecnologias sociais que busquem
a inclusão social e a inclusão educacional como um elemento de reorganização,
de redução das diferenças sociais, de inclusão na sociedade de classes
brasileira. Mas a universidade tem que ter esse papel aberto, tem que
ter essa pluralidade metodológica e, portanto, de técnicas sociais
que, em última análise, correspondam a uma sociedade aberta, a uma
sociedade democrática.
A cultura
é um dos
fronts da luta que travam os países do Terceiro Mundo
para resistir à inserção subalterna no contexto da globalização.
Nesse sentido, como a universidade pode contribuir para a consolidação
de uma identidade nacional, sem prejuízo a uma generosa abertura para
o mundo?
Eu penso que
ela pode se dar em três níveis, fundamentalmente. Em primeiro lugar,
no nível da interatividade com as outras estruturas do governo que
estejam vinculadas à cultura, em sentido lato - seja, por exemplo,
com o Ministério da Ciência e Tecnologia, que também trabalha com
tecnologias de difusão cultural; seja com o Ministério da Educação,
em projetos específicos, que dizem respeito à própria função. A
segunda forma é a universidade e o Ministério promovendo eventos de
natureza cultural, de elite. Aqui, quando falo em elite, estou-me referindo
às pessoas que têm capacidade de produção teórica de direção,
de produção de hegemonia cultural e filosófica, que, em última análise,
poderiam ser chamados de eventos de especialistas - como um grande
congresso filosófico sobre Kant ou um grande seminário sobre a questão
democrática, sobre a globalização e o neoliberalismo, e assim por
diante. Portanto, estou falando de eventos seletivos, de eventos que
tenham capacidade seletiva. E o terceiro nível é o modo como o Ministério
da Educação se ratifica e se capilariza na sociedade, por meio de
projetos conjugados, seja com escolas de nível fundamental, de nível
médio, que tenham a ver, também, com a produção cultural - como
o estímulo à leitura, que abrange desde a distribuição de livros,
de obras literárias nacionais e internacionais, e, até mesmo, a produção
de livros didáticos, que têm, também, algum tipo de vínculo cultural
- e não só formativo-disciplinar - para fazer uma referência
um pouco reducionista da finalidade de um livro. Então, é nesses níveis
que o Ministério da Educação pode trabalhar. Nós estamos operando
nos três níveis, não só participando e induzindo eventos, que vêm
da sociedade civil, das instituições, da universidade pública, como
também estabelecendo essa relação horizontal muito forte com o governo,
e estamos trabalhando nessa capilaridade, dentro da rede pública, por
intermédio da qual o MEC consegue chegar a uma grande parcela da população
brasileira.
Uma das interfaces
mais importantes entre universidade e sociedade se constrói, especialmente
no âmbito das universidades federais, na atenção à saúde. Considerando
que essa é uma área de articulação entre o MEC e o Ministério da
Saúde, como se tem pensado essa conexão no bojo da política formulada
para os hospitais universitários?
Essa relação,
na minha opinião, até o momento, pelo menos, a que nós chegamos,
é bastante limitada e, até certo ponto, conflituosa para o próprio
Ministério da Saúde. Eu e o Ministro Humberto Costa assinamos, juntos,
uma série de decretos - evidentemente firmados pelo Presidente
da República, a quem compete a edição dessas normas - e estabelecemos
um conjunto de relações conveniadas, que vai desde a integração
dos cursos vinculados à área da saúde - como, por exemplo, o curso
de Medicina -, numa visão mais propícia à sustentabilidade do SUS,
que não ocorria no MEC, do que propriamente subordinando o ensino das
ciências médicas a uma visão mais espontaneísta, que estava na raiz
da própria certificação dos cursos que o MEC fazia. Essa relação
ainda está em um nível de aperfeiçoamento, mas já atingimos um patamar
de valorização desse tipo de relação, a ponto, inclusive, de constituirmos
residências especializadas na área da saúde, vinculadas ao projeto
do SUS, ou seja, com interatividade que pode ser referida como exemplar,
até agora, nas relações do MEC com o Ministério da Saúde. E assim
em relação aos outros projetos, que, ordinariamente, são demandados
pelo próprio Ministério da Saúde - como, por exemplo, a questão
dos cursos de pós-graduação, a moldagem desses cursos às necessidades
do SUS, e uma organização mais adequada à permissão de funcionamento
de cursos que têm vínculos com a saúde do Brasil - que têm vínculos
com Ministério da Saúde e com as questões relacionadas à saúde
pública, e, aí, incluem-se desde a Fisioterapia até a Medicina, cursos
que têm esse tipo de origem.