
CONFERÊNCIA
NO SEMINÁRIO INTERNACIONAL
MEC/SP/ABRIL
2005
Giulio
Carlo Argan, no seu "Projeto e Destino", definiu de forma brilhante
e simples o significado e o alcance histórico daquilo que chamamos
"projeto": "o primeiro homem que fabricou um copo para beber e,
depois de ter bebido, guardou-o para se servir dele novamente, tinha
a memória da utilidade do copo e previa que voltaria a servir-se dele.
Sobre uma experiência passada construiu um projeto para o futuro. Dos
mínimos aos máximos fatos, o comportamento histórico se desenvolve
num arco temporal que vai da experiência ao projeto: aquilo que é
objeto no presente foi projeto do passado e é condição do futuro".
(Editora Ática, 2000, São Paulo, p. 16).
A
capacidade de construir um projeto é uma capacidade especificamente
humana. Um outro exemplo não menos saboroso, historicamente conhecido,
é aquele que menciona que o mais primitivo e vulgar dos arquitetos
será sempre maior que uma laboriosa abelha, que reproduzirá infinitamente
as mesmas formas de uma mesma colméia, já programada nos seus movimentos
na própria cadeia da naturalidade.
Este
Seminário Internacional "Reforma e Avaliação da Educação Superior:
tendências na Europa e na América Latina", certamente trará uma
grande contribuição ao processo da reforma da educação superior
no Brasil. No contexto de um debate ainda não terminado
- vamos publicar ainda um terceiro anteprojeto - é que
pretendo provocar algumas opiniões.
Meu
tema originário "A Reforma da Educação Superior no Brasil" será
agregado de uma especificação que considero fundamental, para que
esta medição de idéias torne-se, ao mesmo tempo, utópica e realista;
ou seja, que, de uma parte, as teses não se rendam ao "objetivismo
economicista", que tem perseguido a maioria das modificações institucionais
no mundo de hoje, e, de outra, que elas versem sobre uma reforma
concretamente realizável.
Trata-se
de costurar um projeto de "reforma" numa formação sócio-econômica
determinada - o Brasil -, e num contexto histórico,
- o da globalização financeira - totalmente avesso, não
somente à afirmação das funções públicas do Estado, mas também
a tudo que remeta para "igualdade", "justiça social" e "solidariedade".
Estas categorias, ordinariamente são substituídas, hoje, pela ideologia
da naturalização das desigualdades, pelo dogma da eficácia absoluta
do mercado e pela culpabilização dos "ineptos".
Vou
agregar, portanto, à proposição inicial "A Reforma da Educação
Superior no Brasil", um complemento estrutural e vou titular esta
conferência inaugural como: "A reforma da educação superior no
Brasil, no contexto da globalização financeira, no qual a produção
e controle do conhecimento são vitais para a dominação global como
para a construção da nação".
Embora
o título seja longo, a conferência não será pretensiosa. Ela irá
tentar demonstrar, apenas, que as relações da Universidade com a nação,
com o povo que constitui a nação, e com os direitos fundamentais constantes
em todas as Constituições modernas, são as únicas relações
que dão legitimidade a um projeto de reforma.Sem estas relações
integradas na concepção da reforma ela passa a ser mero jogo tecnocrático
e organização de retalhos para a conformação de interesses.
A
construção de uma universidade renovada no país, a partir de tudo
que ela já nos legou, neste novo contexto globalizado, não poderá
resultar numa mímese empobrecida do que já foi feito nos países
centrais. Não só porque estas universidades também já estão em
crise, mas também porque são instituições que integram nações
já realizadas. Não é o caso do nosso país, cujo processo moderno
começa na Revolução de 30 e ainda não encontrou o seu desfecho estável
relativamente consolidado.
Aqueles
países já realizaram reformas institucionais e políticas democráticas
- progressistas ou conservadoras - há muitos anos e, mesmo
assim, as suas universidades já não respondem, hoje, aos desafios
do progresso científico-tecnológico, compatibilizado com os objetivos
de justiça social e da paz mundial.
Esta
crise do ensino superior no "primeiro mundo" está sintetizada na
estratégia definida pelo Conselho Europeu de Lisboa, de março de 2002
(Joaquin Rodríguez, LE MONDE DIPLOMATIQUE, março 2005). Aquela estratégia
"traduz com exatidão o duplo movimento de redução do poder dos
Conselhos eleitos na Universidade, com as novas práticas de avaliação
que têm uma ótica meramente mercantilista das funções da Universidade.
Pela visão ali consolidada "a educação e a formação são consideradas
fatores determinantes para construir a economia do conhecimento
mais competitiva e mais dinâmica do mundo" (grifei),
sem que esta "competitividade" e esse "dinamismo" sejam concebidos
como corretivos da integração assimétrica que a globalização tem
balizado, de uma parte, e, de outra, sem qualquer referência concreta
que a "competitividade" e o "dinamismo" sejam orientados por
uma ética fundada nos objetivos de solidariedade e justiça.
Na
verdade a universidade é concebida como parte integrante de uma expansão
indefinida do processo de acumulação, inclusive sem qualquer cautela
em relação à já evidente finitude dos recursos naturais
- que já é uma questão urgente para a humanidade - e mesmo
com as conseqüências sociais do processo de acumulação ilimitado.
O modelo de desenvolvimento americano é um exemplo dramático desta
situação: a relação sócio-metabólica do processo produtivo (para
usar uma expressão de István Mèzaros) com os recursos naturais já
é destrutiva das possibilidades de futuro da humanidade.
O
governo do Presidente Lula, no Brasil, está se propondo fazer a primeira
reforma, fora do esquema ultraliberal adotado por uma série de outras
reformas feitas nos anos 90. Esta iniciativa poderá sinalizar algo
de novo para a América Latina, com a consciência de que este "novo"
só pode ser construído através de um diálogo dotado da mais ampla
universalidade.
Será
um diálogo sem exclusões prévias, que esteja atento às grandes transformações
financeiras, econômicas e políticas, que ocorreram nos últimos 40
anos. Estas transformações, que foram, até agora, profundamente negativas
para a América Latina, mas que, em função dos avanços técnicos,
científicos e tecnológicos que estão na sua base, abrem grandes possibilidades
para o futuro, ao mesmo tempo que podem promover mais barbárie, descoesão
e violência.
José María Gómez fez uma síntese
clara dos dois fatores que desencadearam a referida globalização financeira
e que estão no centro da crise que vem destruindo os patamares mínimos
da estabilidade da modernidade madura. São eles: "a liberalização
de intercâmbio de bens e serviços e a mobilidade praticamente ilimitada
do capital". ("Globalização da política - mitos, realidades
e dilemas". In: Globalização excludente. Pablo Gentili (org.). Petrópolis:
Vozes, 1999, p. 149).
É óbvio que estes dois fatores são,
na verdade, produtos de um largo processo histórico de desenvolvimento
do capitalismo e da democracia, mas cuja concretude tanto poderia adotar
a forma atual, como outra forma, arbitrada na esfera da política. Ora,
basta lembrar que o capitalismo tanto é compatível com a escravidão
como é, também, compatível com a democracia política plena. É compatível
com o fascismo e também com a construção dos direitos subjetivos
individuais e dos direitos públicos subjetivos, que já se expressaram
fortemente no contraditório processo de construção do Estado Moderno.
Neste
sentido a universidade é, tanto um fator de criação de condições
objetivas, culturais, científicas e sócio-políticas para afirmação
da democracia e dos direitos humanos, como também pode ser um fator
de reprodução indefinida das mesmas ou de piores condições de opressão
social, na qual vive a maioria da humanidade.
Gostaria,
por isso, de manifestar-me de imediato contra uma visão alienada e
pseudomoderna, de que a função da Universidade é só criar quadros
dotados de conhecimentos "suficientes" para serem aproveitados como
mão-de-obra, seja para a indústria, para os serviços e para o setor
financeiro. Não é só isso. A função da Universidade é a produção
dos saberes através da "pesquisa", é a socialização
da cultura e do conhecimento através do "ensino", é a ampliação
do conhecimento e das tecnologias sociais através da "extensão",
que irradia a Universidade para a totalidade do organismo social. Neste
movimento é que ela cria quadros de qualidade para serem aproveitados
na esfera privada e na esfera pública, segundo a formação técnico-científica
e humanística de cada um.
Se
a função da universidade fosse apenas responder aos interesses imediatos
da indústria ou do processo produtivo em geral, ela seria só uma continuidade
linear da vida econômica e não uma indutora estratégica do conjunto
de movimentos - científicos e humanísticos -
necessários para os processos de desenvolvimento e de coesão social
que se articulem com a idéia de nação. Ora, a nação é, na verdade,
não os processos objetivos de produção e reprodução social e econômica
que ocorrem no seu território, mas o conjunto de pessoas que constituem
a sua cultura que edificam o seu modo de vida e vivem no seu território.
A
produção do desenvolvimento científico e tecnológico, o ensino e
a socialização dos saberes, devem estar orientados por objetivos éticos
e políticos previamente definidos. Estes objetivos só serão alcançáveis
democraticamente se o sujeito pensa, anteriormente, o projeto de
nação e constrói instrumentos para isso. Assim, o próprio entendimento
da reforma como processo, de médio e longo curso, interage com
a esfera da política, que define progressivamente a nação: utopia
e realismo, portanto, interagem dialeticamente como o "sopro modela
o vidro".
O "sentido" do saber e da
produção do conhecimento não são alheios à natureza da reforma.
Os saberes das matemáticas tanto podem derivar para o cálculo econométrico,
como para impulsionar as engenharias. A filosofia, tanto pode incidir
sobre a bioética, como dar base à construção de novas teorias estéticas.
E a pesquisa nuclear, tanto pode derivar para a produção de artefatos
militares defensivos ou ofensivos, como pode ser voltada para construir
máquinas complexas destinadas à produção de energia limpa e barata.
A
mediação existente entre a ciência e a técnica, a
técnica e a economia, a economia e a sociedade,
é sempre a mediação que dá conteúdo concreto à "polis" e que,
portanto, determina como se desenvolve e em que sentido se
desenvolve o próprio processo de produção e socialização do
conhecimento que é arbitrado pela política.
No
documento preliminar interno que servirá de base para a exposição
da segunda edição do texto do anteprojeto da Lei da Reforma, está
registrado o seguinte: "Nos últimos anos, vários países têm
convocado sua capacidade critica para um diagnostico das limitações
e dos desafios enfrentados pelos sistemas universitários, gerando propostas
de políticas nacionais. Da mesma forma estudos comparativos reforçam
a avaliação de que ‘’o desenvolvimento e a qualidade de vida de
uma Nação dependerão fundamentalmente do valor do seu ensino. Hoje
a universidade brasileira está desafiada a exercer um papel de vanguarda
na construção de um país que almeja ocupar o lugar valorizado na
divisão internacional do trabalho, na chamada era da informação.
Hoje, uma nova reforma universitária que signifique um novo pacto
entre governo, comunidade universitária e sociedade, é uma necessidade
urgente para salvar a educação superior brasileira.
Essa
valorização do papel da universidade contrasta com o quadro
brasileiro em que o sistema de educação superior enfrenta, hoje, o
maior desafio em termos latino-americanos: o nível de
acesso é um dos mais baixos do continente; a proporção
de estudantes nas instituições públicas reduziu-se a um terço do
total; o peso da matrícula e das instituições privadas de educação
superior tornou-se o mais alto da América Latina."
Para
que se tenha uma idéia da dimensão da tarefa que estamos nos propondo,
gostaria de lembrar, como exemplo, apenas alguns dados de um país importante,
a Espanha, que passou, mais ou menos no mesmo período que o Brasil,
por uma transição acelerada de modernização democrática depois
de décadas de fascismo e que teve na Educação Superior um dos seus
sustentáculos importantes. O exemplo não persegue a "adoção"
de um "modelo espanhol" de reforma, mas apenas ilustra o gigantismo
do trabalho que temos pela frente.
Em
1973, a universidade espanhola dispunha de 404 mil estudantes. No ano
2000 esta cifra ascendeu para 1.583.000 estudantes. Foi quadriplicando,
e com qualidade (em menos de 30 anos) o número de estudantes universitários,
inclusive com uma grande ampliação da rede pública. Com esta evolução
este país acompanhou o ritmo dos países da OCDE, agora com mais de
50% dos seus jovens entre 18 e 24 anos na universidade, mas ainda com
números bem inferiores ao Canadá, em torno de 88% e à Austrália,
em torno de 76%. (Pérez-Dias, Victor; Rodríguez, Juan Carlos. "Educación
Superior y futuro de España". Madrid: 2001, Fundación Santillana,
p. 81).
É
dramático dizer que no Brasil de hoje somente 11% dos jovens, nesta
faixa etária, estão na Universidade, e destes 11% em torno de 70%
dos matriculados estudam em instituições privadas, normalmente freqüentadas
por jovens com famílias de baixo poder aquisitivo. Embora a rede não-estatal
do ensino superior tenha cumprido uma importante função social ao
disseminar o ensino superior no território nacional, não foi constituído
um "sistema integrado de ensino superior", baseado em exigências
de qualidade com critérios sociais para a sua expansão. Provavelmente
a maior parte destas escolas não tem as mínimas condições de funcionamento,
exigíveis para uma formação de nível superior condizente com as
nossas necessidades históricas.
Na
verdade, os ajustes ultraliberais que se produziram na América Latina
nos últimos 40 anos, geraram aquilo que Lester Thurow chamou de "sociedade
de soma zero", na qual "os benefícios obtidos por alguns, em virtude
dos desenvolvimentos capitalistas, se produzem às expensas da deterioração
na situação de outro". ("The Zero-Sum Society, Distribuition anda
the Possibilities for Economic Change", New York, Basic Books, 1980).
No caso do ensino superior restou para a maior parte dos jovens entre
18 e 24 anos uma educação de segunda categoria. Tal constatação
não nos exime de reconhecer a excelência de várias instituições
universitárias não-estatais espalhadas pelo país e a importância
que elas terão para o nosso futuro.
Estados
que toleram passivamente semelhantes desequilíbrios colocam em perigo
a sua própria função legitimadora e a sua própria estabilidade,
inclusive a estabilidade econômica, que será sempre precária enquanto
a dívida pública não estiver sob controle, independentemente das
cartilhas ortodoxas aplicadas religiosamente. (Ferrol, Francisco Murillo.
Prólogo à obra "La crisis fiscal del Estado", de James O’Connor.
Barcelona, Ediciones Península, p. 11).
Nesta
situação paralisante para a formação da nação, as "políticas
compensatórias", importantes como mediações de uma transição
planejada para outro modelo de crescimento e coesão social, tornam-se
políticas permanentes. Políticas de cristalização de profundas desigualdades
sociais, de fragmentação dos sujeitos sociais e dos sujeitos políticos
e, também, focos de reposição permanente da desordem econômica,
sempre reimpulsionada por conflitos sociais incontroláveis. São conflitos
cujo desfecho têm sido, quase sempre, o reforçamento da autoridade
repressiva do Estado e a redução dos direitos, tanto sociais como
políticos da cidadania.
Não
é demais relembrar que, nestas circunstâncias - por exemplo,
no âmbito do direito do trabalho -, ao invés da modernização
das tutelas, para buscar a "formalização da informalidade", gerando
maior coesão social e por isso reforçando a credibilidade das instituições
formais do Estado; ao invés da ampliação do âmbito
protetivo da legislação do trabalho (barateando os custos da contratação
pela desburocratização e pela desoneração do trabalho produtivo);
ao invés de uma efetiva modernização do sistema legal, o que vem
sendo promovido é o esmagamento de conquistas sociais mínimas, dos
direitos trabalhistas que emprestam dignidade mínima ao mundo do trabalho.
Estas
são as reformas que promovem a indeterminação, a insegurança
e uma falsa "autonomia" dos trabalhadores, que se tornam, na verdade,
autônomos em relação às redes de proteção social, construídas
por dentro das reformas sociais-democratas. São reformas que tornam
a maioria dos "descartáveis" cada vez mais dependentes de ações
compensatórias do Estado, o que mais amarra grande parte do povo na
subcidadania e na subalternidade.
A
"categoria" político-social "reforma", registre-se, mudou de
sentido. Já nas últimas décadas ela tem servido para designar as
atuais contra-reformas que são a desmontagem das reformas da velha
social-democracia, que aliás afastaram nos países ocidentais hoje
desenvolvidos o "fantasma" da revolução.
Assim, para o ultraliberalismo o "bem
estar social" é substituído pela caridade. E o apelo ao dever
moral de exercer a caridade passa a impregnar as políticas do Estado
com programas sociais "focalizados e temporais". Esta situação
política foi introduzida, por exemplo, pelo Governo Collor no Brasil,
pelo governo Carlos André Péres na Venezuela, pelo Presidente Menem
na Argentina e pelo Presidente Salinas de Gortari no México. (Saxe-Fernádez,
Eduardo E. "Democracia, Corrupción y crisis neoliberal en Latino
América". In Travesías, ano 1, nº 1, julio- diciembre 1996, Universidad
Internacional de Andalucía, p. 159).
Libertar
a reforma desta visão pequena e sujeita apenas aos desígnios da globalização
tutelada pelo capital financeiro e integrar a reforma num outro sentido
da globalização, recusando a precária paz social conseguida pelo
paternalismo de políticas que devem ser provisórias, é pensar
a reforma da universidade no contexto de promoção de um novo modelo
de desenvolvimento de paz social duradoura pela inclusão e pelo
desenvolvimento sustentado. Um modelo que combine a estabilidade
macroeconômica com políticas públicas corajosas e ousadas de largo
alcance histórico e de grande abrangência social.
É
bom lembrar que a contestação do ultraliberalismo, tanto pode ser
feita através do nacionalismo, do fundamentalismo e do estatismo corporativo
e desestruturador da sociedade civil, como pode ser feita a partir de
uma visão moderna de democracia avançada, cuja síntese já foi orientado,
aliás, até por sociais-democratas moderados, como Willy Brandt e Felipe
Gonzalez. No "Manifiesto del programa 2000" (Ed. Sistema, Madrid),
eles apontaram, mesmo dentro de um contexto hostil, a atualidade "das
três universalizações: a saúde, o sistema educativo e as pensões
que caracterizam o esforço do socialismo democrático na Europa, do
ponto de vista dos serviços públicos e que foram conseguidos em muitos
países europeus há décadas, (direitos que) foram logrados na Espanha
nesta década". Referiam-se à década de 90, época ainda de
forte expansão e legitimidade das idéias ultraliberais.
Para
que esta contestação democrática ao ultraliberalismo seja eficaz
em países como o nosso, devemos - no plano da educação
superior - abandonar a idéia vaga e genérica de que a
universidade "faz a sociedade" sempre a partir da sociedade como
ela está.
Esta
posição deve ser substituída pela visão dialética de que a universidade
é feita pelo ideal de sociedade que queremos construir e, portanto,
que a reforma que queremos está subordinada ao conteúdo e ao
sentido da sociedade que vamos democraticamente construir.
Isso
implica numa dupla rebelião: em rebelar-se contra a visão estreita
de que a universidade é simplesmente uma resposta das demandas da
economia como ela está e que ela é um simples apêndice do processo
de globalização financeira: se assim o fosse, tendo em conta que
o modelo global atual vem é promovendo guerras, golpes, miséria, deserção
radical de continentes inteiros como a África, a universidade atual
só deveria ser reformada para dar sustentação a este processo perverso.
De
outra parte, no contexto político da reforma e nas suas normas formais,
é necessário deixar claro que as atividades de pesquisa, ensino e
extensão, não podem nem ser partidarizadas - porque devem
ser políticas de Estado - nem politizadas de maneira falsa, porque
perderiam o seu sentido universalista.
Suas
normas não podem nem ser subordinadas a visões "classistas", sejam
elas quais forem - pois elas são sempre falsas universalidades
- nem podem ser um desdobramento mecânicos das "necessidades"
do processo econômico em curso.
Este
processo econômico em curso, orientado pela globalização financeira,
está duramente marcado pelos interesses dos "centros orgânicos"
da economia mundial, que necessariamente respondem aos interesses dos
países hegemônicos. São os países que necessitam, cada vez mais,
apropriar-se dos recursos naturais e dos recursos (imateriais) oriundos
dos saberes científico-tecnológicos, cujo uso não é regulado levando
em consideração os limites dos recursos naturais disponíveis. Por
exemplo, a água existente no planeta, a nova capacidade de produzir
energia limpa, assim como a enorme reserva de terras disponíveis que
temos para a produção de alimentos, são vantagens comparativas fundamentais
que devem ser consideradas para a nossa inserção soberana no contexto
global.
O
contexto histórico mundial, de outra parte, não autoriza nem fundamenta
a conformidade com uma suposta vocação de sermos nação do "segundo
grupo", sob o argumento de que a globalização "já bloqueou"
a mobilidade dos países que estão em posição secundária no cenário
global: "O cenário indica que a abertura econômica, apesar dos traumas
e reorganizações abruptas da produção, não necessariamente impede
o desenvolvimento de inovações tecnológicas no Brasil. Os grandes
exemplos estão na conhecida EMBRAER, no setor de hidrogeração da
alemã Siemens, cujos centros de excelência mundial estão localizados
no Brasil e no pólo cerâmico de Santa Catarina. Neste caso, houve
aliança bem sucedida com produtores de insumos e design italianos."
(Benício Viero Schmidt. "A educação superior e a globalização".
In: Entre escombros e alternativas: Ensino Superior na América Latina,
Editora UNB, 2000, p. 250). São exemplos pontuais de uma enorme capacidade
que temos de nos posicionar na vanguarda.
O
grande professor Milton Santos ao flagrar o fenômeno global da simultaneidade,
hoje vigente no sistema-mundo, definiu-o assim: "o fenômeno da simultaneidade
ganha, hoje, novo conteúdo. Desde sempre, a mesma hora do relógio
marcava acontecimentos simultâneos, ocorridos em lugares os mais diversos,
cada qual, porém, sendo não apenas autônomo como interdependente
dos demais. Hoje cada momento compreende em todos os lugares, eventos
que são independentes, incluídos em um mesmo sistema de relações".
(SANTOS, Milton. "Técnica espaço tempo - globalização e meio
técnico-científico informacional". São Paulo: Editora Hucitec,
1996, P. 123).
Esta
visão da totalidade expressa que, de uma parte, os projetos
nacionais são absolutamente necessários para compartilharmos de forma
adequada do novo "sistema-mundo" que deverá advir do processo atual,
e, de outra parte, esta visão ensina que ele - projeto
de nação - hoje só poderá existir combinando interdependência
e soberania, construção de novos paradigmas e
reordenamento das funções republicanas do Estado.
A universidade é um instrumento constituinte da melhor possibilidade.
A
produção de conhecimentos para a implementação de novas tecnologias
sociais, para a criação de novas tecnologias, para a pesquisa biogenética,
para o desenvolvimento da bioética, para a geopolítica e defesa é
o que pode nos colocar, com soberania e autonomia, no contexto desta
simultaneidade, que é um outro nome do espaço mundial no qual
o sentido nacional se realiza e comunga.
Recorro
novamente ao documento que estamos produzindo, para a apresentação
do segundo esboço do projeto-de-lei da Reforma.
1. Nossa
proposta é de uma transformação na educação superior brasileira
que vise atender aos anseios da sociedade para a construção de um
país desenvolvido, democrático, com autonomia de decisão sobre os
seus destinos, cujos cidadãos participem plenamente de um projeto de
desenvolvimento sustentável.
2.Uma nova política precisa valorizar as universidades públicas
como instituições estratégicas
redefinindo a política de investimentos de curto e longo prazo
em educação superior, ciência e tecnologia articulando-as com um
projeto nacional..
3. No âmbito da macro-política educacional o sistema
de educação superior está de tal modo fragmentado que se
tornou urgente construir um sistema nacional integrado de educação
superior.
4. O sub-sistema de universidades públicas federais precisa, com
a melhoria de sua qualidade global, ser o modelo de referencia para
o conjunto do sistema nacional, reafirmando-se o
papel essencial do financiamento do Estado
à educação pública superior.
5. O sub-sistema público de universidades
como modelo de referência deve ancorar-se numa concepção de universidade
como instituição social cuja pratica acadêmico-científica e social
seja fundada no reconhecimento público de sua legitimidade e
respaldar-se na idéia de autonomia do saber, isto é, na
liberdade acadêmico-científica.
6. As instituições não publicas de qualquer natureza
- particular, comunitária, confessional ou filantrópica
- terão sua condição universitária reconhecida ou renovada,
mediante processo periódico de recredenciamento baseado no Sistema
Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES)
7. Uma nova política de educação superior urge criar condições
para a democratização do sistema - ampliação do acesso
ao ensino superior público e como gestão participativa
-, e sua função social - relevância para o desenvolvimento
econômico e social do país.
8. O novo Sistema Nacional de Avaliação da Educação superior
(SINAES) tem como principal objetivo a
assegurar a qualidade acadêmica, avaliando se as instituições
publicas e privadas estão cumprindo
sua missão pública no âmbito local, regional ou nacional, coordenada
pela Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior (CONAES)
e executada pelo Instituto Nacional "Anísio Teixeira"(INEP).
9. As IES devem promover novas
políticas de desenvolvimento e integração do ensino, pesquisa e extensão,
priorizando a melhoria da qualidade e a expansão
dos cursos.
a) ensino de graduação (diurno e noturno), que valorize a formação
humanista e científica, flexibilizem o perfil profissional dos formandos
e considerem as condições de trabalho dos estudantes.
b) Ensino de pós-graduação:
estimular a expansão qualificada dos cursos de pós-graduação,
ampliando as possibilidades de acesso aos cursos de Mestrado e Doutorado,
por meio de políticas de desconcentração regional dos cursos, apoiada
no sistema de avaliação da CAPES.
c) No campo da pesquisa: fomentar o desenvolvimento de
atividades de pesquisa em todas as áreas de conhecimento e níveis
de ensino não só atendendo a sua vocação científica mas às
demandas da sociedade, incluindo a pesquisa em humanidades e artes para
contribuir ao fortalecimento de nossa identidade cultural.
d) No campo da extensão: estimular que os estudantes
cumpram o papel profissionais e cidadãos
incorporando a extensão nos planos curriculares e ampliar a interação
da universidade com diferentes setores da sociedade.
10. Colocar o país rol dos primeiros da América Latina em atendimento
aos jovens da faixa etária de 18 a 24 anos estabelecendo metas ambiciosas
de expansão, ampliando os recursos públicos em volume global e
per capita..
11. Enquanto o setor público não absorver uma proporção de 40% da
demanda por educação superior, os jovens, sobretudo, carentes de recursos
financeiros, tenham assegurada a matriculada no setor privado através
do PRO-UNI que hoje representa o maior programa de bolsas de graduaçao
da história republicana: mais de 100 mil bolsas.
Gostaria
de referir rapidamente a três pontos importantes, que certamente estão
sendo pensados neste processo de reforma:
1º)
A consideração da reforma do ensino superior como instrumento de qualificação
e universalização do ensino básico, na formação de professores,
na utilização de recursos da educação à distância, na reinvenção
permanente de processos pedagógicos adequados às condições sociais,
ambientais e culturais, de cada região de um Brasil que é extremamente
diverso. Sem esta preocupação a reforma deixará de incidir sobre
um dos obstáculos mais graves relacionados à coesão social e cultural
do nosso povo, deixando campo livre à "cultura de massas" de baixa
qualidade.
2º)
A atenção para rejeitar quaisquer formas de corporativismo, que deve
ser explicitada normativamente na reforma. Lembro que, no concreto,
não há nenhuma diferença entre o corporativismo "de direita"
ou "de esquerda". Ele é sempre um momento organizativo primário
da cidadania democrática, mas, quando transgride para tornar-se uma
proposta de organização da sociedade, uma forma de luta
ou um padrão de organização de uma instituição, embora o seu
discurso possa ser diverso ele é sempre o mesmo.
E hoje a sua forma histórica concreta é a do corporativismo tecnocrático,
que ora se apropria do discurso "sindical" para legitimar-se no
imediato, ora se apropria do discurso "revolucionário" para mobilizar
consciências com base no romantismo revolucionário-proletário do
início do século. Na verdade, repito, ele é sempre o mesmo: o suposto
direito do fragmento contra o todo, a redução de todos os confrontos
de idéias a "confrontos de classe", a transformação das ideologias
humanistas de caráter revolucionário em mercados de demandas de interesses
fracionários ou privados. (Ludovico Incisa, in: Dicionário de Política.
Norberto Bobbio et alii, Editora Universidade de Brasília, 2ª edição,
1986, p. 289).
3º)
A reforma deve também prestar atenção na proposição de uma definição
clara da autonomia. Sirvo-me diretamente de um texto alheio para
referi-la: "Há uma outra condição para que a autonomia funcione:
ela não pode ser concedida por isonomia. Não é porque a universidade
A tornou-se autônoma que as universidades B ou C devem funcionar na
mesma clave. Como há heterogeneidade entre as instituições e, portanto,
níveis de desenvolvimento acadêmico e científico muito diferenciados,
é preciso que cada autonomia seja feita com contrato social de deveres
e obrigações a ser discutido e avaliado anualmente. Ora, autonomia
com irresponsabilidade é a criação da dependência mais antidemocrática,
capaz de gerar uma universidade só para os grupos organizados internamente,
que (tradicionalmente) só se mobilizam em função dos seus interesses
imediatos".(Carlos Vogt. Autonomia - mesa redonda realizada em 15
de dezembro de 1998. In: Repensando a universidade. H. Moysés Nussenzveig(org.).
Editora UFRJ / Copea, p. 205).