Sexta Carta de Concertação
Política
Industrial como Consenso para uma Agenda de Desenvolvimento
- A retomada do crescimento
e a redução das desigualdades sociais são os principais desafios
para o governo e a sociedade neste momento. Para enfrentá-los, é preciso
garantir a dignidade de cada cidadão brasileiro, respeitando a diversidade
cultural, distribuindo renda e valorizando o trabalho. Depois de enfrentar
as ameaças do descontrole inflacionário, a fuga de capitais de curto
prazo, uma intensa onda de expectativas negativas e o fechamento de
importantes mercados internacionais, o Brasil tem pela frente todas
as condições para expandir ainda mais suas exportações, investir
em aumento da capacidade produtiva , aumentar sua produção agrícola,
recuperar o potencial de crescimento de seu mercado interno, redefinir
os gastos públicos, começar a reconstruir sua infra-estrutura e trilhar
uma rota consolidada para o crescimento sustentável com inclusão social.
- Nesse contexto,
a elaboração e a implantação de uma política industrial, tecnológica
e de comércio exterior ganham destaque. Esta política, resultado
de escolhas concertadas entre a sociedade e o governo, deverá servir
como orientação e estímulo para os investimentos privados, como forma
de focar prioridades governamentais, como instrumento
de articulação entre setores produtivos, como mecanismo de enfrentar
as desigualdades regionais e como engenho para a recuperação da competitividade
e expansão das atividades econômicas no país. Esta ação consensuada
entre a sociedade e o governo deve ter impactos sobre as atividades
econômicas privadas, de empresas nacionais e internacionais, de grandes,
médias, pequenas e micro empresas e outros agentes econômicos, mas,
também, deve estabelecer processos de fortalecimento da cidadania,
de inclusão social e de redução do desemprego e da desigualdade.
- Estas definições
deverão ocorrer em uma conjuntura de consolidação de uma estabilidade
duradoura interna, assim como, exigem a construção de mecanismos institucionais
que possibilitem a retomada da capacidade de investimento do setor privado
e público, naquilo que é de sua responsabilidade constitucional. Exigem,
também, a consolidação da recuperação fiscal do estado brasileiro
a ampliação da utilização de recursos internacionais disponíveis.
As conquistas já alcançadas pressupõem a manutenção de um quadro
político de tranqüilidade e de um conjunto de resultados macroeconômicos
adequados. O sucesso desse sistema no longo prazo, no entanto, está
vinculado à capacidade de retomada dos investimentos, recuperação
do crescimento, melhoria da capacidade de consumo do mercado interno
e afastamento das expectativas inflacionárias paralisantes.
- Um dos mecanismos
institucionais para o estímulo ao investimento é a parceria pública
e privada, a PPP, que permite a afirmação do papel do Estado como
regulador e promotor do desenvolvimento econômico e social, num sistema
que serve como meio de melhorar as condições de vida da população,
satisfazer as necessidades de infra-estrutura da economia e viabilizar
a exploração de mercados atraentes para os segmentos empresariais.
As definições em torno dos marcos regulatórios setoriais e das normas
de incentivo à responsabilidade social constituem aspectos fundamentais
para levar a efeito esta modalidade inovadora de investimento em parceria,
que pode representar a solução para diversos entraves e carências
da sociedade brasileira.
- Outro importante
instrumento para o conjunto de ações articuladas de retomada do crescimento
é a expansão dos mecanismos de difusão do crédito com seus impactos
sobre expansão da demanda interna, aumentando o crédito pessoal, as
atividades de micro-finanças e as linhas de crédito para pequenas
e médias empresas. Ao lado disso, há de se buscar mecanismos mais
eficientes de intermediação entre poupança e investimento, que permitam
a maior profundidade e capilaridade do mercado de capitais no país.
- O objetivo maior
deste Governo é construir o desenvolvimento sustentável do País e,
para isso, sabemos que a redução da vulnerabilidade externa é imperiosa
ao futuro dessa iniciativa. Esse é o foco das políticas industriais,
tecnológicas e de comércio exterior em permanente esforço pela elevação
do patamar de exportações, especialmente de bens de maior conteúdo
tecnológico agregado. Neste sentido, as medidas propostas visam
a modernização e a diversificação do parque industrial nacional,
bem como o desenvolvimento da capacidade de pesquisa e inovação tecnológica
do País, indutoras do aumento da eficiência e da competitividade na
economia nacional, incluindo, também, uma política de negociação
internacional eficaz que propicie melhoria de preços das comodities
e maior acesso aos mercados externos compradores de produtos industrializados
brasileiros, de maior valor agregado e gerador de emprego no mercado
interno.
- Nesse sentido, é
fundamental considerar os impactos da política industrial sobre o conjunto
das cadeias produtivas afetadas e priorizar as ações que resultem
na criação de mais e melhores postos de trabalho. Merecem especial
atenção as micro e pequenas empresas, que necessitam de qualificação
técnica, gestão empresarial, crédito facilitado, otimização fiscal
e facilidade para exportação. O tratamento destacado para a
agricultura e a pecuária também significa um relevante incentivo para
a produção e a distribuição de renda, assegurando melhores condições
de vida no campo e evitando o agravamento dos problemas sociais nas
cidades. Finalmente, medidas de estímulo à construção civil,
como as anunciadas recentemente, podem ter importante impacto positivo
no mercado de trabalho.
- Os princípios da
Política Industrial fundamentam um conjunto de ações que compõem
a estratégia de desenvolvimento do País, e devem convergir para o
nosso objetivo final de alcançar o crescimento sustentável com geração
de emprego, renda e promoção de inclusão social. Portanto, essa Política
está articulada a investimentos destinados a projetos promocionais
do desenvolvimento nacional, conforme previsto no conjunto de medidas
presentes no Plano Plurianual Anual (PPA) relativo ao quadriênio 2004-07
e, também, a um conjunto de metas prioritárias, entre elas, a criação
de postos de trabalho, a redução do analfabetismo absoluto, a redução
do índice de mortalidade infantil, novos assentamentos para a reforma
agrária, e outros indicadores sociais que fazem parte do Plano Brasil
de Todos – Participação e Inclusão.
- Para ter sustentabilidade,
é preciso promover interações institucionais e empresariais e uma
articulação fina com os sistemas educacionais e centros de pesquisa,
de modo que seja cultivado um novo ambiente industrial de cooperação.
Não pode haver expansão industrial sustentável sem desenvolvimento
tecnológico sem investimentos e sem uma política científica ousada
e inovadora. Nesse sentido, a criação de uma Agência Brasileira de
Desenvolvimento Industrial, que coordene as prioridades da política
industrial será um passo decisivo para que os benefícios dessa política
possam ser usufruídos por todas as empresas. A multiplicidade de situações
e as especificidades empresariais confirmam a necessidade de que esta
política seja discutida e negociada de forma permanente em um Conselho
de Política Industrial, que inclua governo, o setor privado, responsável
pelos investimentos produtivos e pela produção, bem como tenha a participação
dos trabalhadores, mantendo em vista seu papel na promoção do desenvolvimento.
O conjunto das políticas industriais, tecnológicas e de comércio
exterior terá mais impacto e eficácia se suas ações resultarem da
articulação de esforços da sociedade e do governo, incorporando as
prioridades incluídas no PPA, as ações dos órgãos oficiais de crédito,
os programas de inversão das estatais e os projetos privados de investimento.
- Esta construção
conjunta do governo e da sociedade, tanto da política industrial quanto
da política social, que tem no Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social um importante ator, exige a ampliação do debate sobre a sua
implantação e o compartilhamento da responsabilidade sobre a sua execução.
Como resposta ao anseio coletivo de desenvolvimento, abre-se a oportunidade
de iniciarmos a consolidação de um novo ciclo que nos permita crescer
distribuindo e distribuir crescendo.
Brasília,
onze de março de 2004.