
É comum identificar o terrorismo como uma ação violenta e irracional vinculada imediatamente a determinadas posições políticas. É óbvio que as decisões do terrorista, ou do seu grupo, sempre procuram justificar-se politicamente visando legitimar as suas ações, mas o argumento político é apenas um discurso "arranjado": nada é mais inverso ou avesso à política do que a ação terrorista.
Quero referir, aqui, como terrorismo, àquelas ações violentas que vitimam pessoas ou grupos, que estão formalmente fora de um determinado confronto político, racional, religioso ou nacional e se tornam alvo de ações produzidas de forma oculta e violenta.
O terrorismo é incompatível, tanto com a democracia (um contrato político que exige diálogo para a legitimação recíproca), como é incompatível com a ditadura (que exige a adesão a um único projeto). A democracia não consegue eliminar ou absorver os métodos do terror porque este prescinde de um contrato para legitimar-se. A ditadura não consegue absorver o terrorismo, porque a ditadura já é o terrorismo de outros, tecnicamente organizado, que repele o seu idêntico fora do poder.
Na base da moral terrorista da sociedade moderna está uma concepção instrumental do ser humano. Trata-se de uma concepção da História que entende a ação política como uma mera gradação da violência que sempre caracterizaria a política. O terrorismo seria, assim, uma forma de política a ser escolhida, inevitavelmente, em determinadas situações mais radicalizadas.
Aceitos estes pressupostos manipulatórios, a ação terrorista é capaz de ser legitimada no interior de pequenos grupos, ou mesmo pode ser relativizada, em termos morais, perante a sociedade. Por quê? Porque os próprios valores que organizam a sociedade capitalista permitem reabrir continuamente a moral terrorista, mesmo que a sua fundamentação seja falsa. Vejamos como.
Através do Homem presente o terrorista
"ensina" pela violência, como deve ser o homem para a sociedade depois: uma
comunidade composta por seres humanos enquadrados no seu ideal religioso,
racial ou político, cujo parto vem pela força coativa do terror. Para o
terrorista, o homem atual é apenas um instrumento para "produzir" o ser humano
idealizado do futuro. Ao aceitar o sacrifício do homem do presente para
construir a sociedade do futuro idealizado, o terrorista despe o ser humano
atual das suas características humanas
- sua dor, seu sofrimento, sua vida prática - e
assim torna-o mero instrumento de troca. Sua humanidade atual é
"trocada" pela humanidade da sociedade e do homem do futuro.
No
seu delírio extremista, o terrorista aceita a desumanidade, presumidamente para
fundar uma nova Humanidade. Este fundamento último do terror é pré-kantiano, já
que a ética kantiana não permite usar o outro como instrumento. Mas também
aponta para a condição pós-moderna, já que nela quaisquer valores podem ter
pretensão de legitimidade, mesmo que sejam valores de comunidades que se
recusam uma ética universal. Para
o terrorista, o fim último justifica os meios, o que transforma os seres
humanos atuais em simples objetos, usados como meios, para construir o futuro
perfeito. O terrorismo não atribui ao ser humano atual qualquer importância,
porque só o objetivo final lhe interessa. Numa negociação feita em Argel com
terroristas do ETA, um representante do governo espanhol ouviu a seguinte
interpelação do representante da organização: "Vocês acham que nós gostamos de
sair por aí para matar gente?" Trata-se, pois, para o terrorista, a necessidade
de matar, de uma "dura necessidade". O
terrorista, assim, imagina que não gosta de matar. Mas a morte é o seu
objetivo, cientificamente planejado, para que a operação terrorista tenha sucesso.
Estas características da ideologia do terror
- planejamento e sucesso - também
são confortadas pela racionalidade capitalista. Ela também vê, nos seres
humanos, objetos para a reprodução econômica da sociedade através do trabalho:
o planejamento racional e o sucesso no objetivo, fazem desaparecer corpo e
espírito do ser humano atual e concreto. Resta a finalidade.
Para
o terrorista, o presente a ser renegado compõe-se de homens a serem renegados
como seres humanos reais. A consciência humanista das ações, no tempo e no
espaço, só torna-se regulação humanista para quem aceita a imperfeição do
sujeito e a indeterminação do futuro. O terrorista é o corregedor perfeito da
História, por isso ele pode matar, vivendo a história absoluta do dogmatismo
doentio. A
superioridade da sociedade capitalista democrática, em comparação com as
sociedades precedentes, é que, para organizar a hierarquia social na sociedade
industrial, ela teve que regular as relações de instrumentalização do ser
humano através do trabalho: aí nasceu a democracia, o direito moderno, os
direitos humanos, a vocação da liberdade e a legitimação da luta pela
igualdade. Quando a sociedade responde, porém, pelo seu Estado, fora das leis e
do Direito, ela promove o terror,
porque, com o terrorismo, neste caso ela cria a sua própria lei sem
dimensão pública. Assim,
o "desaparecimento" do homem concreto, tanto se faz com aviões contra o World
Trade Center, como pela ação do Estado "perfeito" com bombas contra os bairros
miseráveis de uma Cabul já destruída: no primeiro caso, a justificativa da
morte é a "dura necessidade" para apressar a História; no segundo caso, as
mortes - também de civis, também de
inocentes, velhos, mulheres, crianças -
são apenas equívocos "tecnológico". Outra "dura necessidade". É o terror
alimentando o terror.