
Tarso Genro
I
Um renomado intelectual
americano, que atende pelo nome de Fukuyama, decretou há alguns anos
atrás, através de um ensaio famoso, que tínhamos chegado ao
"fim da história". A base desta concepção sobre o futuro das
instituições políticas e sociais é o
"não-futuro": elas teriam chegado a um tal grau de adequação
às possibilidades humanas que, daqui para frente, não mais mudariam
de forma relevante.
Sempre soubemos, porque
experimentamos, que a história não chegou ao seu fim.
Se é verdade que vivemos num mundo despropositado, sabemos também
que estamos no olho de um imenso furacão. Ele está produzindo mudanças
capazes de abalar o próprio conceito de humanidade, forjado pela história
até os dias presentes. A História não acabou: sabemos porque experimentamos
e porque esta experiência pode ser concebida também como teoria.
Agora mesmo está em curso
uma mudança histórica no processo produtivo no interior do próprio
modo de produção capitalista. São mudanças que alteram o cotidiano
e se projetam na História para recriar o homem e as suas relações
com o mundo. A política, o Direito, o Estado, não serão os mesmos
que emergiram da Modernidade.
As mudanças que se operam
- por enquanto - não tratam da substituição de um modo de produção
por outro qualitativamente diferente, capaz de inverter, por exemplo,
a tutela do capital sobre o trabalho. Estas mudanças operam o surgimento
de novas técnicas de produzir, que reduzem substancialmente a necessidade
do trabalho vivo, (aquele que
diretamente produz um bem determinado!) e passam a reorganizar
o mundo do trabalho e também novas relações de cooperação entre
as empresas.
A autonomia individual
que surge deste processo, tanto poderá ser regrada como
isolamento e solidão, como
poderá ser instrumento de liberdade e de desalienação.
Isso dependerá, por exemplo, do Direito Público e também do novo
Direito do Trabalho que iremos construir na próxima década.
O Estado, concebido pelos
modernos, não tem mais condições de representar"
nem "mediar" os conflitos expostos por estas novas condições materiais
de existência, geradoras de uma nova cultura e de um novo tipo de individualidade.
As antigas formas jurídicas da sociedade mercantil, que foram engendradas
pelo capitalismo clássico, são insuficientes para regrar esta
nova situação de fluidez, diversidade, fragmentação, e separação
radical, entre a sociedade formal (os incluídos) e a sociedade informal
(os excluídos).
As relações entre a
indústria e os serviços, que vem se alterando
desde a década de 60, serão radicalmente transformadas, gerando uma
redução cada vez maior de postos de trabalho naquele setor chamado
"produtivo". Aumenta, assim, sem cessar, o setor de serviços
e os trabalhos desqualificados ficam situados numa
"zona gris", entre a marginalização e a sociedade integrada. A
informação - a capacidade de transmiti-la, armazená-la
e usá-la, reduzindo ao máximo a intervenção humana - torna-se cada
vez mais um elemento chave para a agregação e criação do valor.
O surgimento do trabalho
"telecomutter"; a possibilidade, à curto prazo,
da violação dos espaços geográficos e sociais para a captação
da força de trabalho (em breve um trabalhador da Malásia vai poder
prestar serviços no Brasil através da telemática);
a fusão do trabalho manual e do trabalho intelectual
nas novas linhas de produção; a afirmação de um setor terciário
como contratante hegemônico; a evidência de uma constelação de instituições
de serviços (cooperativas de trabalho, microempresas e empreendedores
"autônomos" etc.); a horizontalidade da produção articulando
escala, qualidade e diferença, bem como a
"pulverização" do Estado tradicional, constituem um único universo
que exige a emergência de novas formas jurídicas de organização
da sociedade e de proteção dos direitos. Logo, um
novo tipo de Estado, que possa combinar intervenção
e regramento eficientes com racionalidade e agilidade democrática.
Os velhos padrões protecionistas
até agora conhecidos, iniciados neste século pela Constituição de
Weimar e pelo Tratado de Versalhes (1919), perderão rapidamente a sua
atualidade. Devemos exigir o surgimento de novas tutelas, compatíveis
com um mundo que se não for regrado de forma criativa poderá nos levar
à barbárie.
Como reagirão os herdeiros
do Iluminismo, do humanismo e da democracia a esta tormenta histórica,
é o que está efetivamente em disputa. Será aceitando que o mercado
desregulado e selvagem é a "fonte da vida"? Parece que esta ideologia
já bateu no seu teto: os próprios organismos internacionais que promoveram
a idéia da inutilidade do Estado já começam a vacilar.
O mundo atual é um mundo
de segregação e exclusão: das formalidades jurídicas e sociais,
de um lado, e das informalidades alternativas fragmentadas, de outro.
É um mundo onde os incluídos tendem a formar um bloco de interesses
cada vez mais homogêneo contra o "resto". Se essa
tendência não for revertida por uma nova cultura de solidariedade
e por novos regulamentos, a barbárie realizar-se-á pelo consenso manipulado,
baseada nas idéias elitistas do passado, que serão apresentadas como
novas, perante nossa falta de criatividade em abordar o futuro.
Com a quebra frontal dos
velhos paradigmas, com a desmoralização de todos os totalitarismo
- do fascismo ao stalinismo -, precisamos reinventar a generosidade,
a utopia e a solidariedade. E ela só pode surgir através de uma nova
proposta de sociedade, que parta do desejo de
um novo modo de vida, sustentado em novas formas jurídicas,
inclusive para viabilizar um novo tipo de
direito: o direito ao trabalho útil. Isso só será possível
numa sociedade que, ao mesmo tempo que
promova o trabalho de solidariedade contra a exclusão,
reorganize o direito ao trabalho, não só através da
própria socialização dos postos de trabalho, mas também
definindo o valor econômico do trabalho não produtivo,
pelo seu valor humano e social.
II
A idéia anterior do socialismo,
que redundou no totalitarismo, partia da premissa que era preciso organizar
a produção de uma certa forma (coletivista estatal), para gerar um
novo modo de vida. Hoje creio que é necessário partir
de um modo de vida que efetivamente queremos para, a partir daí,
desenhar as novas formas de produzir. Uma forma de produzir
orientada pelo sujeito e uma sociedade desenhada pela consciência.
Uma
sociedade que possibilite uma vida conscientemente orientada
pressupõe a oportunidade de que os seus cidadãos decidam sobre o direito
de receber do fundo social, construído pela conjugação dos esforços
de toda a coletividade, o que minimamente necessitam para reproduzir
as suas condições de existência.
Se esta decisão é consciente,
o é também das demais necessidades mínimas de cada ser humano. Logo,
a decisão também pressupõe uma "renúncia"
em benefício do todo. Pressupõe um
regramento ajustado, através de sucessivas disputas que
afirmem valores, que estimulem relações de solidariedade e gerem relações
de poder, nas quais as pessoas possam
decidir sobre o futuro em condições de mínima igualdade.
A partir do reconhecimento
de que é necessário, por parte de todos, uma "renúncia"
mínima e progressiva, é possível,
tanto limitar a desigualdade máxima, como pautar uma mínima
igualdade.
Nesta nova ordem utópica
e possível deve estar pressuposto que cada ser humano poderá e deverá
pautar seu projeto existencial por diversas opções de prazer e também
por respostas às suas necessidades. Esta combinação irá nortear
as suas escolhas profissionais e culturais, caracterizadoras do seu
modo de vida. Isso não é mais uma utopia:
a reforma do Estado e uma nova cultura de solidariedade pode,
hoje, ser apoiada pela mais formidável revolução no conhecimento
que a humanidade jamais realizou.
Agrega-se que os meios
atuais, produzidos pela terceira revolução científico-tecnológica,
permitem a instituição de controles estatísticos, cálculos e armazenamento
de informações, capazes de dar uma feição concreta a essa idéia,
que se tornaria mediadora da ação do Estado e também um princípio
geral da Constituição .
É preciso ter claro que
estamos no início de uma época histórica na qual o trabalho como
base civilizatória, tal qual foi compreendido e assimilado pela história
humana, até hoje, tende a desaparecer. Surgirão novas formas de relacionamento
prático dos homens entre si e entre estes e a natureza. O controle
sobre a natureza e a exploração das suas potencialidades terão uma
mediação muito maior da informação e do
conhecimento, e as relações dos homens entre si serão
mediadas pela digitalização e a informatização.
Assim, o valor trabalho,
tomado no seu sentido tradicional, será cada vez mais relativizado
nas sociedades altamente desenvolvidas e o próprio
tempo livre poderá ser cada vez maior.
É certo, também, que
o trabalho "produtivo" será cada vez menor e,
se a sociedade for mais justa, ele será também mais repartido entre
os cidadãos. Isso exige concluir que não é correto, portanto, que
somente o trabalho no sentido tradicional, isoladamente, seja
a medida absoluta para responder às necessidades de cada ser humano.
A qualidade e a intensidade de
"serviços solidários" prestados à sociedade (não criadores de
valor) podem constituir uma nova medida para a distribuição da renda
socialmente gerada.
III
É preciso, então, responder
à crise do Estado na sua forma
constituída pela Modernidade:
- responder: através
da combinação da democracia representativa com a democracia direta
de participação voluntária,
à separação do representante e do representado e à burocratização
do Estado atual;
- responder: com
uma proposta de democratização dos meios de comunicação, à fusão
dos monopólios de comunicação com o Estado, que passaram a formar
de maneira cada vez mais "artificial" a consciência média da cidadania;
- responder: à desregulamentação
selvagem com regulamentos que incitem a solidariedade e equiparem a
dignidade do "serviço solidário" ao trabalho produtivo;
A crise da sociedade
e do Estado já estimulou o surgimento de novas formas de organização
pública, através das quais as demandas não aceitas ou não
respondidas pelos governos, estruturaram-se num imenso circuito de representação
pública.
Este novo espaço público
transcende os partidos democráticos. Cria
formas autônomas de poder e influência, ao lado dos
velhos sindicatos acuados pelo desemprego "estrutural".
Os cidadãos passam, nele, a participar direta e voluntariamente de
determinados foros de decisão, corrigindo a representação política
e qualificando a cidadania.
Esta
nova esfera pública não-estatal, que incide sobre o
Estado, com ou sem o suporte da representação política tradicional,
contém milhares de organizações locais, regionais, nacionais e internacionais,
que aumentam sem cessar a sua capacidade de organizar a sociedade e
influir sobre o Estado.
Elas promovem sua auto-organização
por interesses aparentemente particulares: são entidades que militam
para defender, desde a atenção para determinadas doenças, o direito
à habitação e de acesso à terra, até para sustentar demandas tipicamente
comunitárias. Estas entidades podem se tornar reais mediadoras
da ação política direta dos cidadãos por seus interesses, sob controle
destes, sem amarrar-se mecanicamente no direito estatal que regula a
representação política.
IV
O conceito de
"esfera pública"[1], de grande importância na teoria
política e na sociologia jurídica, pode ser explorado a partir de
uma outra abordagem. Por exemplo, buscando adequá-lo,
primeiro, a um projeto que preserve a esfera pública
tradicional como espaço da democracia representativa clássica e,
segundo, adequando o conceito de esfera pública a um
novo tipo de espaço entre o Estado e a sociedade: aquele em que já
há uma combinação da "ação direta" da cidadania com as instituições
públicas já existentes, de molde a dar um caráter plebeu ao processo
em curso de reforma do Estado.
O surgimento da esfera
pública na sociedade burguesa moderna volta-se contra o silêncio que
necessariamente deve encobrir os privilégios e as práticas secretas
do Absolutismo e do Feudalismo. Ela surge como elemento central da democratização
formal do Estado Absolutista, para garantir a
identidade social e econômica dos novos sujeitos do desenvolvimento.
Estes se relacionam com vínculos puramente mercantis (os compradores
e vendedores privados) ou através das relações que emergem do mercado
de trabalho capitalista (empresários e trabalhadores).
A esfera pública democrática,
que rompe com o Absolutismo, busca iluminar a velha obscuridade do poder.
Traz para a luz do debate político novos interesses, que devem ser
equacionados, para a emancipação final da sociedade dos seus laços
servis e de todos aqueles laços que vem operando sem garantia de um
Estado "público". Esta força modernizante gerou um processo que
chegou ao seu fim.
Hoje, aquela esfera pública
tradicional (mais fortemente nos países do capitalismo tardio), por
subordinar as demandas coletivas e individuais a uma lógica puramente
formalista das instituições do Estado (o Parlamento, o Judiciário,
as estruturas burocratizadas da administração) - a esfera pública
tradicional - é obrigada a reconhecer a emergência da organização
social das massas empobrecidas e de conjuntos de indivíduos que lutam
pela emancipação sem respostas adequadas do Estado. E o fazem com
a sua presença direta, alheia ao formalismo das instituições
da sociedade burguesa clássica, seja ao nível do Estado, seja da representação
partidária tradicional, que carece de uma profunda renovação.
Gorz lembra que as tensões
da sociedade atual que expressam as necessidades diretas, originárias
da relação familiar, da constituição da força de
trabalho alienada ou desempregada, das demandas aparentemente individuais
de gênero, ou geograficamente "particulares" (como as ecológicas),
passam a explodir como demandas universais.
Os direitos da velha cidadania,
nesta nova sociedade cada vez mais fragmentada e de interesses sociais
manipulados (que eram absorvidos, ou
"via" Parlamento ou simplesmente através do Judiciário) tornam-se
cada vez mais manipuláveis: "Em verdade, esta esfera pública tradicional,
na qual se trata no mercado de debates do parlamento, de jornais, de
livros e da apresentação e da circulação de opiniões, é invadida
por uma forma de esfera pública com características novas. Esta nova
esfera pública recupera as exclusões e reorganiza, num sentido estrito,
os mais poderosos interesses econômicos privados para
lhes dar a forma de interesses políticos, e isto de tal
maneira que a eles sejam incorporados necessidades de massa."[2]
Esta velha esfera pública,
decaída em termos democráticos, produz um espaço social e político
no qual se movimenta um conjunto de demandas que não podem ser equacionadas
nos estritos termos da normatividade vigente. De uma parte, porque estas
demandas surgem dos setores da sociedade que habitam a sociedade informal
e, de outra, porque seu "programa" - como por
exemplo a proteção do equilíbrio ecológico - atentam diretamente
contra o processo de acumulação, protegido por toda a tessitura normativa
da constituição.
A tendência da situação
histórica atual remete mais para a barbárie pós-moderna e menos para
a renovação democrática da modernidade. A indignação humana passa
a ser a ser a força motriz de um humanismo de novo tipo.
De fato,
"o protesto contra exploração, humilhação e opressão tem sua
justificação a partir da ameaça atual da dignidade humana e não
a partir da reflexão sobre aquilo que é socialmente possível".[3] Pensar, portanto, uma
nova esfera pública não-estatal, como um espaço público
de novo tipo, é uma decorrência do redimensionamento da utopia da
emancipação humana e é também uma prática política e jurídica
concreta, que incide, ao mesmo tempo, sobre o cotidiano e a História.
V
A coincidência histórica
do público com o estatal não surgiu da mera vontade dos sujeitos políticos
que constituiram o Estado Moderno. Traduziu uma necessidade originária
da afirmação do garantismo jurídico. Sem ele o contrato
não poderia balizar e afirmar relações privadas minimamente confiáveis.
Para tanto, o Estado "separado da sociedade" (capaz de absorver
as relações privadas e amarrá-las em nome do bem público) deveria
ao mesmo tempo ser formalmente neutro e materialmente forte, logo,
"invasivo" e "regulamentador": público e estatal, assim, estariam
unidos numa só autoridade, legitimadora das decisões
"privadas" fora do seu território.
As transformações que
se operam nas sociedades capitalistas desenvolvidas, ao mesmo tempo
em que "ampliam" o Estado (Gramsci) para fundi-lo política e normativamente
com as estruturas do poder monopolista (veja-se que ocorre com os bancos
e meios de comunicação), reduzem a sua carga normativa endereçada
à cidadania, desregulamentando direitos históricos. Esta cidadania,
quando enfraquecida para fazer valer os seus direitos, organiza grupos
de interesse que coletivizam as suas demandas antes individuais ou corporativas,
que se transformam em demandas públicas. Criam, assim, uma dinâmica
de negociações e pressões que, entre o Estado e a sociedade, geram
um novo espaço que tem um caráter público e, ao mesmo tempo, não
é absorvido pela tutela ou comando do Estado.
A criação de um novo
modo de vida, conscientemente orientado, só poderá ocorrer pela radicalização
deste processo democrático, com indicações mínimas que
liguem os projetos de reforma do Estado e da sociedade civil
a um horizonte onde a questão da igualdade social seja "pré-vista"
como capaz de ser ordenada racionalmente pelo homem.
Tem plena atualidade,
como consequência, a defesa da UTOPIA,
"o lugar não alcançado": ou seja, a necessidade de antevisão
generosa de instituições políticas do futuro, de formas presumidas
de organização do Estado e de organização da sociedade civil, que
afirmem a liberdade e a igualdade.
É preciso, no curso desta
construção, também assumir o risco de propor, ao lado das atuais,
novas formas de propriedade. Por exemplo, uma propriedade estatal
controlada socialmente, ou mesmo um tipo de
propriedade privada de interesse público, para avançar
em direção a novas idéias organizadoras da produção e da apropriação.
Norberto Bobbio disse
com maestria que "ninguém pode pretender conhecer o destino da liberdade
no mundo. Quem se limita a ser observador do que ocorre é tentado a
fazer ainda uma reflexão. No século XIX (...) floresceram as mais
diversas elocubrações utópicas de uma sociedade finalmente libertada;
e estava bastante enraizada a convicção de que o destino da humanidade
fosse a liberdade. Depois, aconteceu o que aconteceu:
aconteceu que, na entrada dos campos de escravidão e de extermínio,
foram escritas, com diabólica contrafação, as seguintes palavras:
o trabalho liberta. Neste século XX não conheço utopias,
realizações fantásticas da sociedade futura, que não descrevam universos
de obscuro domínio e de desolado conformismo. A única esperança é
que, também dessa vez, os incautos profetas estejam errados."[4]