Ação Política para a Mudança e a Concertação
- PRIMEIRA CARTA DE
CONCERTAÇÃO –
1. O processo de construção
da nação brasileira até os dias de hoje - ainda incompleto
- realizou-se através de duras lutas sociais, acordos,
conciliações, movimentos de larga repercussão histórica e políticas
pela redemocratização do país. Os interesses contrapostos, legítimos
e ilegítimos, fazem parte da vida “espontânea” de qualquer povo
e qualquer país, mas a produção de um
sentido para a história
é sempre uma decisão consciente dos sujeitos políticos.
2. Muito foi feito nos
nossos 500 anos de história, mas, sem dúvida, ao lado do crescimento
da nossa dívida financeira está a mais pesada herança dos nossos
cinco séculos: desigualdades sociais inaceitáveis - agravadas
hoje pela exclusão de milhões da sociedade formal -, aumento
da violência, crescimento da insegurança, dúvidas e angústias perante
um futuro incerto.
3. O grande desafio
do nosso país, hoje, para todos os que amam a democracia e querem aperfeiçoá-la,
é promover uma renovação política e social nos marcos da Constituição
para bloquear o caminho que pode nos levar a uma ruptura da sociedade
formal com a sociedade informal, dos excluídos com os incluídos, que
poderá levar a um confronto de ricos e pobres, sem perspectivas de
solução pela política nos marcos da democracia. Por isso, o caminho
que buscamos é o da mudança com inclusão social, participação na
vida pública e distribuição de renda.
4. A vitória do atual
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, no processo eleitoral
de 2002, amparado numa ampla aliança de classes sociais, diferentes
partidos e vontades políticas plurais, oferece uma oportunidade ímpar
para a sociedade brasileira. Vindo dos movimentos social e sindical,
o Presidente organizou uma aliança que pode oferecer ao país uma saída
inovadora e exemplar para a construção do destino nacional do Brasil.
5. O Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social (CDES) é a materialização dessa aliança.
A construção de um espaço público não estatal, a partir de uma
representação plural da sociedade civil, inaugura um novo caminho
em nosso país: a civilização do Estado brasileiro, ou seja, a subordinação
do Estado à sociedade civil. Como resultado do processo histórico
e político, não temos uma cultura do diálogo, de interlocução real
e positiva com todos os setores. Referenciados na tolerância e na diversidade,
na disposição de ouvir as idéias contrárias, o CDES busca a construção
do consenso. Através da explicitação das divergências, das múltiplas
e legítimas visões que nos constituem, é possível construir as convergências.
O processo de concertação, que ora iniciamos, pressupõe
a busca, através do diálogo e do debate, de diretrizes e propostas
consensuais ou majoritárias em questões estruturais para o desenvolvimento
econômico e social do Brasil. Um esforço que objetiva a celebração
de um “novo Contrato Social” - uma nova vontade política
majoritária para recoesionar a sociedade brasileira na construção
consciente de uma nação moderna, democrática e socialmente solidária.
6. Para isso é necessário,
porém, que os parceiros sociais da concertação tomem consciência
plena de algumas limitações que sempre acompanham pactos e acordos
como possibilidades a serem construídas:
primeiro:
a agenda da concertação não vai satisfazer todos os interesses específicos
de classe, grupos ou setores da sociedade, nem se destina a eliminar
da cena pública interesses corporativos, que sempre serão pauta de
qualquer sociedade democrática;
segundo:
para que haja produção de alguns consensos fundamentais é necessário
que se processem conflitos regulados, abertos a toda a sociedade, para
que se dê visibilidade a pontos comuns que interessam ao Brasil como
nação, acima dos interesses setoriais e de classes;
7. A consciência de
que a concertação só pode realizar-se através do diálogo e do conflito
qualificado abre, porém, um imenso território a ser explorado positivamente
e que, bem trabalhado, pode expor-se como exemplo mundial. Primeiro
apontemos os objetivos do projeto que pretendemos implementar:
- “reclassificar” a sociedade
brasileira, reduzir drasticamente a informalidade, buscar integrar a
todos na estrutura de classe através do emprego, do trabalho, da atividade
produtiva e de serviços, para tornar residual o desemprego, o subemprego
e a exclusão;
- libertar o Estado brasileiro
da necessidade dos capitais de curto prazo, reduzir os juros, fazer
o Brasil crescer, distribuir renda;
- criar instrumentos para
aumentar o controle social do Estado;
8. Há um tema essencial,
que deve ser transposto para que se criem as pré-condições necessárias
para alcançar aqueles objetivos. Três deles - as primeiras
reformas - foram pautados, recentemente, pelo Presidente
da República: a reforma da Previdência, a reforma da Legislação
Trabalhista e a reforma Tributária. O primeiro tema é o mais urgente,
não só porque a Previdência atual promove profundas desigualdades
sociais no pagamento das pensões e proventos de aposentadorias, mas
também porque gera um brutal “déficit” público que
- juntamente com outros fatores - obriga o país, recorrentemente,
a servir-se de capitais de curto prazo para fechar as suas contas.
9. Como integrantes
do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, independentemente
do conteúdo das propostas que defenderemos ao longo do processo de
discussão, comprometemo-nos a nos pautar pelos seguintes objetivos,
buscando concertar pontos comuns para viabilizá-los:
- buscar uma reforma da Previdência
que crie condições técnicas e jurídicas necessárias para extinguir
a aquisição de vantagens contra a Lei e contra o Direito;
- reformar a Previdência
respeitando os direitos adquiridos, incorporados legal e constitucionalmente
ao patrimônio subjetivo de cada cidadão;
- reformar a Previdência
para que ela deixe, a médio prazo, de ser deficitária;
- reformar a Previdência
para aumentar o valor real das pensões e aposentadorias de baixo valor,
manter o poder aquisitivo das pensões e aposentadorias de médio valor
e acabar com a possibilidade de aposentadorias e pensões exorbitantes
e incompatíveis com os padrões sociais e econômicos do país.
10. Sabemos
que a nossa missão é difícil e que temos, entre nós, interesses
e até mesmo visões de mundo diferentes. Mas sabemos, também, que
poderemos dar um exemplo histórico, resolvendo alguns agudos problemas
nacionais através de um processo conflitivo de debates e sustentações
de pontos de vista, que podem poupar o país de instabilidades sociais
e políticas futuras de gravidade. Sabemos que, em determinados momentos,
num país em que não estamos ainda acostumados à interlocução social
ampla, poderemos ser tentados a esmorecer.
Comprometemo-nos que isso
não ocorrerá, pois sabemos que, vencido este tema, poderemos abrir,
para o nosso país, as condições para um novo período histórico
de justiça social e democracia.