Quarta Carta de Concertação
O Desafio
da Transição e o Papel da Sociedade:
A Retomada
do Crescimento
- O propósito desta
Quarta Carta de Concertação é ressaltar o debate de alguns enunciados
políticos fundamentais, capazes de agregar amplas maiorias sociais,
visando à concertação nacional. Queremos, ao avaliar o crucial momento
que atravessa nosso país, romper os limites do simples diagnóstico
e assumir uma atitude propositiva e serena, visualizando os caminhos
possíveis e necessários para o desenvolvimento sustentável.
- Nas três cartas
anteriores, propusemos temas importantes, com o objetivo de acumular
conhecimento e diálogo entre os diversos sujeitos sociais que compõem
o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). Na Primeira
Carta, apresentamos o papel do CDES, como espaço público não estatal,
na construção de um novo entendimento nacional, tomando como ponto
de partida a recuperação do Estado, a partir das reformas. Na Segunda
Carta, discutimos a necessidade de o país optar pelo crescimento como
condição para enfrentar a questão da exclusão social. Na Terceira
Carta, avançamos na definição dos fundamentos econômicos para a
construção de um novo contrato social, baseado no crescimento sustentado,
na geração de empregos e na distribuição de renda, delineando alguns
passos importantes na árdua e inédita tarefa de transição para um
novo modelo de desenvolvimento.
- O Brasil sabe que
é preciso enfrentar o desemprego com ações urgentes e concretas,
e também entende que é importante manter o equilíbrio econômico.
Governo e sociedade, empresários e trabalhadores, perseguem o mesmo
objetivo: um novo modelo de desenvolvimento, que promova crescimento
e inclusão social, progresso e cidadania, democracia e participação,
qualidade de vida e preservação ambiental, educação e pleno emprego,
tecnologia e competitividade, consumo de massas e esforço exportador.
O Brasil quer encerrar um ciclo e começar um novo momento em sua história.
- Sabemos que não
há saídas fáceis. Não existem soluções miraculosas, que resolvam,
de um dia para outro, os problemas agravados durante décadas. A pirotecnia
na economia e na política nos leva, inevitavelmente, a um círculo
vicioso, alternando bolhas de crescimento com processos de profunda
recessão. A sociedade brasileira já viveu essas experiências e rejeita
esse caminho.
- O papel do Conselho
é colaborar na formação do juízo político do Governo, como instituição
representativa da sociedade. Por um lado, precisamos avançar e apontar
para o Presidente da República os caminhos e as possíveis alternativas
para a superação da crise. Por outro, devemos levar nossos consensos
aos diversos espaços de atuação de cada um, contribuindo para ampliar
o alcance da concertação. O Governo, com a adoção de medidas fortes,
tem empreendido esforços para recuperar a credibilidade do país e
recompor o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e promotor
da justiça e da igualdade. No entanto, alguns efeitos colaterais dessas
medidas por vezes deixam a sociedade apreensiva ou impaciente.
- Os indicadores sociais
e econômicos são preocupantes, pois apontam para uma perspectiva de
esgarçamento crescente do tecido social, aprofundando as diferenças
entre incluídos e excluídos, entre sociedade formal e informal, bem
como agravando as desigualdades de raça, gênero e idade. O crescimento
da violência é uma das faces mais perversas e contundentes do agravamento
da pobreza e da miséria, pois rouba a liberdade de ir e vir e torna
a vida cotidiana da maioria do povo cheia de medos e tragédias. Não
é possível o desenvolvimento quando a violência se banaliza, impregna
a cultura e os espaços de sociabilidade e transita da sociedade para
o Estado e vice-versa, envolvendo a naturalização das práticas de
corrupção e impunidade, que precisam ser combatidas com firmeza. Neste
ponto, ações consistentes já vêm sendo desencadeadas pela Controladoria
Geral da União.
- Sabemos que o Governo
não assiste de forma passiva a esse processo: as políticas sociais,
o estímulo ao microcrédito, o lançamento do Plano Agrícola e Pecuário
2003/2004, a redução constante das taxas de juros, a recriação de
organismos regionais de desenvolvimento e a Agenda de Desenvolvimento
Econômico são ações que iniciam a reversão do quadro. O crescimento
reduz as tensões políticas, eleva a arrecadação pública e permite
a continuidade das reformas estruturais num ambiente de otimismo e diálogo
político.
- O país quer mudança
com segurança, previsibilidade, solidez e durabilidade. A sociedade
espera que o Governo seja forte para garantir a estabilidade e ousado
para retomar o crescimento e colocar o país nos trilhos do desenvolvimento
sustentável. Para tanto, o Conselho propõe que sejam tomadas medidas
imediatas que avancem na transição para um novo eixo de política
econômica, promotor do desenvolvimento, de modo a gerar novos postos
de trabalho e melhorar a qualidade de vida, por meio de investimentos
do setor público, prioritariamente nas seguintes áreas: saneamento
básico, habitação popular, tratamento e reciclagem de lixo, medicamentos
genéricos, reforma agrária, transportes, cultura, educação e pesquisa
científica. À necessária firmeza do Governo impõe-se a contrapartida
da sociedade, traduzida em ações positivas de trabalhadores e empresários,
que podem criar um clima favorável ao entendimento e à busca da concertação
social.
- Há, também, naturalmente,
grupos da sociedade atuando no sentido de apresentar suas propostas
e defender seus interesses. A democracia inclui as corporações, porém
não pode se limitar a elas. A capacidade de negociar, dialogar, buscar
consensos é o caminho necessário para assegurar que as disputas na
arena política tenham como resultado decisões que privilegiem o interesse
público.
- A democracia madura
exige elevado grau de consciência, debate de idéias e explicitação
de divergências. Um regime democrático não se constrói com a pasteurização
do conflito, mas utiliza a crítica como um instrumento decisivo para
a superação positiva, visualizando, a partir das diferenças, os pontos
de consenso.
- O país precisa
construir uma sinergia entre Governo e sociedade, que permita visualizar
os objetivos estratégicos colocados em nosso horizonte político, e
forjar um novo bloco dirigente, comprometido com um projeto de futuro.
Esse é o caminho para a construção de um novo contrato social, que
naturalmente pressupõe a existência de conflitos, mas não se coaduna
com a intransigência de agrupamentos e corporações, que tentam submeter
o conjunto da sociedade aos seus interesses particulares.
- Para acelerarmos
o processo de modernização e desenvolvimento do país, é fundamental
a democratização da propriedade da terra, com a reforma agrária e
o fortalecimento da agricultura familiar. No Brasil, é absolutamente
compatível a coexistência da empresa rural, moderna e produtiva, que
tem enorme importância econômica e social, com a pequena propriedade
familiar, fundada na cooperação e voltada ao mercado interno. Ao Governo
cabe promover o diálogo e a conciliação, sem aceitar que a força
se sobreponha à razão, ao Estado de direito e à convivência social.
- O Governo deve
avançar rapidamente para produzir suas políticas públicas numa conexão
mais eficiente com a sociedade civil organizada, através das múltiplas
formas de relacionamento, que, em estado embrionário, já caracterizam
o Governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O Conselho, como
espaço privilegiado de concertação, permite a manifestação das
aspirações da sociedade civil e representa uma real oportunidade para
o Governo testar a aplicabilidade e a legitimidade de suas políticas
públicas. Nesse contexto, é importante reafirmar o papel do CDES como
fiador do compromisso do Governo no sentido de não elevar a carga de
tributos no processo de discussão e aprovação da reforma tributária.
- O CDES, diante
do momento que vive nosso país, convoca todos os setores da sociedade
civil a afirmarem a defesa da democracia e do desenvolvimento sustentado.
Governo e sociedade, público e privado, são parceiros do novo modelo
de desenvolvimento, que não nascerá da vontade de um único partido,
classe social ou corporação. Esse é o momento da visualização dos
interesses gerais da nação e da construção de um projeto de futuro
que pertence a todos. Se ao Estado cabe a tarefa de manter a estabilidade,
adotar medidas de ajuste e controle fiscal, garantir os investimentos
públicos, gerar políticas de distribuição de renda e ações que
permitam a inclusão social, à sociedade é reservado também um protagonismo
especial. Capital e trabalho, empresários e trabalhadores, podem e
devem construir juntos os alicerces do desenvolvimento. As condições
políticas, sociais e econômicas para a superação da crise estão
a um passo. Cabe a cada um, Governo e sociedade, fazer a sua parte.
Brasília, 4 de setembro de 2003.