Quinta Carta de Concertação
Caminhos
para um Novo Contrato Social
Documento
de Referência para o Debate
- O novo contrato
social, assumindo a legitimidade das disputas de interesses, busca,
a partir dessas disputas, fazer emergir os grandes pontos em torno dos
quais será possível definir projetos e pactuar regras que possam levar
a resultados minimamente positivos para todos: Crescimento econômico
sustentado com inclusão social, trabalho e distribuição de renda.
- Crescimento econômico
sem inclusão social, como ocorreu em longos períodos da segunda metade
do século XX, não é, definitivamente, um resultado bom para a nação.
Não é bom sequer para aqueles que dele imaginavam estar se beneficiando,
ameaçados que se vêem, de forma crescente, pela desordem e violência
nascidas da cultura da violência e da desesperança socialmente excluída.
- Se, hoje em dia,
algumas sociedades do mundo podem exibir elevados índices de desenvolvimento
econômico e social, devem tal situação a pactos originários de lutas
sociais, fundados em consensos que promoveram mudanças geradoras de
menos desigualdade e mais justiça. Em boa parte da história da Europa,
dos Estados Unidos e do Japão, por exemplo, ambientes institucionalmente
propícios ao investimento privado não promoveram desigualdades na
distribuição de riquezas e inclusão social, mediante investimentos
também na universalização de direitos sociais básicos, tais como
educação, saúde, moradia, transporte coletivo e outras áreas. Trabalhadores
bem educados e gozando de boas condições de vida proporcionaram qualidades
civilizatórias, que vieram a propiciar as condições para novas melhorias
sociais.
- Tais ganhos sociais
não se conseguem por decreto, nem os acordos são fáceis ou simples.
Esses ganhos resultam de muita negociações, muitas vezes duras. Pactos
formais e gerais como o de Moncloa, na Espanha, são raros. Na maior
parte dos casos, esses pactos foram firmados não em um único momento,
mas após sucessivos episódios de luta, de negociação, de elaboração
legislativa, de decisões judiciais, de atos governamentais, ao longo
de anos, e gerando, passo a passo, amplos acordos sobre direitos e obrigações
que melhoraram a vida dos trabalhadores, expandiram os mercados e fomentaram
os negócios.
- Experiências ímpares
como as de Moncloa, ou mais gerais como as das sociais democracias européias
ou do New Deal estadunidense, demonstram que uma renovação
da contratualidade social é possível. A realidade brasileira, hoje,
sinaliza que tal renovação contratual é necessária. A economia brasileira
não pode continuar a crescer ignorando parte relevante da população,
que sobrevive consumindo apenas o básico. De forma análoga, os investimentos
não podem seguir convivendo com a violência, a degradação urbana,
o baixo nível de escolaridade e educação, a falta de condições
de saúde e saneamento na qual vegeta a maior parte de homens e mulheres,
jovens e velhos brasileiros.
- A esta bem conhecida
situação geral de exclusão social que caracteriza a sociedade brasileira,
soma-se, agora, nova ameaça econômica e social: a exclusão informacional.
No mundo de hoje, os países mais ricos e democráticos oferecem a maior
e melhor parte de seus empregos para trabalhadores bem capacitados intelectual
e cognitivamente. Sejam engenheiros, sejam operários, os trabalhadores,
nesses países, estão preparados por um adequado sistema educacional
e pelas condições sociais e culturais gerais das sociedades em que
vivem, para aplicar inteligência e conhecimento às situações de
trabalho. A gestão do conhecimento, e não a gestão de materiais,
é o maior desafio com que se defrontam as organizações públicas
e privadas. Pessoas não preparadas para tal estão sendo, por isto,
em todo o mundo, excluídas dos empregos e dos padrões de vida civilizados
e democráticos. E, uma vez que também esses homens e mulheres excluídos
necessitam sobreviver, a carência de investimentos na capacitação
sofisticada de recursos humanos gera um contingente de milhões de trabalhadores
que se mantêm vivos, sujeitando-se a atividades infamantes e degradadas,
desde as sweat shops, comuns em regiões da Ásia e da América
Central, até o narcotráfico ou o terrorismo que se espalham pelo mundo,
inclusive pelo Brasil. Residem aí, portanto, as bases racionais e éticas
de um novo contrato social brasileiro.
- O desafio brasileiro
não está mais centrado num tipo de contrato social calcado nas condições
técnicas, culturais e políticas vigentes à época da indústria mecânica
de massas, da comunicação radiofônica, dos poderes estatais centralizados,
das grandes economias nacionais, quando se dera a constituição das
bases de sucesso daqueles países centrais. Temos que pensar um projeto
nacional para um mundo digital e mediático, das comunicações interativas,
de afirmação da sociedade civil organizada, da grande economia global.
Nisto, não existe experiência pregressa no mundo, na qual possamos
nos mirar. E é aqui, neste novo campo, por conseguinte, que podemos
demonstrar, muito mais do que no futebol ou no samba, o talento e a
competência da criatividade e originalidade tipicamente brasileiras.
- Nosso objetivo maior
é promover a inclusão social e informacional da maioria excluída.
Esta é a meta que molda o eixo do novo contrato, determina as condições
das políticas econômicas, define as prioridades de investimento, regula
as relações políticas e jurídicas entre os grupos sociais, e estabelece
os direitos e obrigações dos indivíduos. Dadas as restrições impostas
ao setor público, em função das exigências de gastos, financeiros
ou sociais, frente a uma carga tributária que não pode ser incrementada,
sob pena de se transformar em ônus demasiado à sociedade, então deve
caber também à própria sociedade assumir, mesmo que parcialmente,
os compromissos da agenda social. Muitas empresas já têm consciência
de suas responsabilidades sociais, investindo em educação, meio ambiente,
cultura e outros setores. Investir é caminho certo, pois, desses dispêndios,
a empresa retira elevados dividendos, que vão desde incrementos na
produtividade até a consolidação de marca e imagem, que servem para
conquistar mercados.
- Em outras palavras,
a parceria entre o Estado e a iniciativa privada não mais se concretiza
somente sob a forma da aplicação de tributos recolhidos para oferecer
ao capital trabalhadores bem treinados, um ambiente urbano seguro e
civilizado, subsídios à pesquisa científica e tecnológica, políticas
fiscais e industriais voltadas para o incentivo ao investimento na produção
de bens e serviços e na geração de empregos.
- Parte do desafio
de hoje consiste em formar uma nova parceria, sem que o Estado se aliene
das tarefas públicas. Em tal parceria, os investimentos requeridos
pela sociedade, seja no campo da produção, seja nas áreas sociais
ou de infraestrutura, devem ser de responsabilidade conjunta entre o
governo e as empresas. E o advento da PPP (parceria público-privada)
parece ser um bom caminho nesse sentido. Esta possibilidade se mostra
viável a partir da atuação do Estado no sentido de restringir os
riscos dos investimentos de mais longo prazo e da consciência das empresas
de que alguns serviços prestados à população devem manter sua natureza
pública. Como suporte a este arranjo, os marcos regulatórios e institucionais,
com definição em curso, assumem papel de destaque. Nesse sentido,
deve ser recuperada a capacidade de investimento, bem como o papel de
financiamento do Estado. Da mesma forma, deve ser promovida uma melhoria
na eficiência da gestão pública.
- Da mesma forma
que os investidores devem assumir parcelas de responsabilidade social
que antes cabiam quase inteiramente ao Estado, também aos trabalhadores
cabe responder a igual exigência do mundo contemporâneo. Nestas novas
condições, o emprego estável e especializado vem dando lugar ao trabalho
variável e multidisciplinar. Diante destas novas condições, os sindicatos
precisam se mostrar aptos para acolher e conduzir novas demandas sociais,
incorporando em suas agendas mobilizações abrangentes, que acabam
por atender mais às multidões excluídas do que aos membros socialmente
incluídos de sua base. Se o capital pode, no limite, daí retirar produtividade
e lucro, o trabalho também retira até mesmo a sua qualidade mínima
de vida, posto ser o próprio trabalhador quem costuma conviver, muito
proximamente, com as mazelas decorrentes das condições degradadas
impostas aos rebaixados ou excluídos. E o trabalhador acaba sendo a
maior vítima da violência marginal que impera nas periferias urbanas
e favelas.
- No novo contrato
social a ser negociado, o setor financeiro deve se constituir numa fonte
de recursos voltados para a produção industrial e agrícola, o comércio
e os serviços, bem como para os investimentos sociais. Para tanto,
é necessário que o peso relativo da dívida pública seja reduzido,
e tal objetivo somente pode ser logrado mediante um programa de compromissos
de longo prazo, que, pouco a pouco, permita converter boa parte dos
pagamentos de juros para fins produtivos. Esta dinâmica deve ocorrer
a partir da continuidade do processo de redução na taxa de juros,
tendendo a patamares internacionais, bem como de aumento da poupança
interna. Tais resultados, acompanhados de uma meta de manutenção dos
elevados superávits comerciais, devem permitir maiores taxas de crescimento
econômico, tendo em vista que as exportações desempenham papel chave
para reduzir a vulnerabilidade do país.
- Longo prazo é
a palavra chave. E longo prazo não depende do partido governante. Como
os verdadeiros problemas do Brasil não se resolvem em um mandato presidencial,
o contrato social é a garantia de cumprimento de compromissos básicos
ao longo de vários governos que se sucedem, independentemente de seus
diferentes matizes políticos e ideológicos. O atual governo do Presidente
Luis Inácio Lula da Silva proporciona, a respeito, um grande exemplo:
nascido das forças que, até um ano atrás, ocupavam o campo da oposição,
soube manter e até aprimorar aspectos essenciais das políticas do
governo anterior, naquilo em que exprimiam um inegável consenso nacional.
Isto se deu mesmo sob críticas e crises, não raro emocionalmente difíceis,
dentro da própria base de apoio ao governo. O governo Lula não teve
dúvidas em adotar as medidas necessárias para manter a inflação
sob controle, bem como levou à frente reformas pelas quais a maior
parte da sociedade reclamava, mas que permaneciam emperradas. A nova
contratualidade social deve refletir justamente este amplo acordo social
e político, em torno das questões essenciais para o futuro do Brasil,
sem cuja solução não haverá futuro, nem para a classe de miseráveis
e excluídos, nem para os bem situados de hoje.
Brasília,
10 de dezembro de 2003.